terça-feira, 28 de setembro de 2010

O homem que via demais.


            Clarindo era o seu nome. Homem de poucas palavras. Ouvia mais do que falava e quando o fazia, era com aquela sua voz mansa, pausada, sem pressa. Muitos o escutavam pela riqueza de detalhes com que ele contava seus causos. Diziam que ouvi-lo era como se presenciassem a cena. Outros diziam que ouvi-lo dava sono. Mas ele não se importava. Ouvia a todos e, para não desagradar, ou não ter que argumentar, concordava com tudo balançando a cabeça afirmativamente. Poucas vezes intervinha na conversa. Ele apenas ouvia. Um dia, Clarindo sumiu por uns tempos e quando reapareceu estava cheio de novidades. Passara dois meses andando pelo interior, visitando as pessoas fazendo o recenseamento do governo e nesse período vira uma coisa que precisava ser contada. Não sei se acreditada... mas contada.
            Ele conta que esse fato aconteceu, numa casa isolada, num lugarejo chamado Saco das Pedrinhas. Ele afirma que vinha descendo uma ladeira que dava em direção à casa, já quase meio-dia, com muita fome, o sol causticante queimava a sua pele já morena e o suor lhe escorria pelo rosto (exatamente com esses detalhes) quando ouviu uns gritos e gargalhadas de crianças. Chegando mais perto, percebeu que crianças, trazendo livros e cadernos, como quem voltavam de uma escola, estavam parados na frente desta casa e jogavam muitas pedras nela.
            - Ei, meninos... não façam isso. Respeitem o dono da casa... já pensaram que pode ser uma pessoa idosa? Falei, andando em direção aos estudantes.
            - Aí num mora ninguém, não Seu Zé. Morava D. Maria parteira, mas ela já morreu. Disse um deles.
            - Mas não façam isso! As pedras estão quebrando o telhado, as portas... o dono não vai gostar! Melhor vocês irem pra casa. Continuei.
            - É casa abandonada, seu Zé. Depois do que começou a parecer aí... ninguém chega mais perto. O Sr. não sabia, não? Aí aparece uma visagem e todos têm medo de passar por aqui. Melhor o Sr. não ficar aqui também.Disse o maior deles.
            Olhei para o menino, olhei para a casa e vi que ela tinha um alpendre meio esburacado de tanto ser apedrejado, mas ainda com sombra fresquinha. O calor era enorme e pensei:
            - Meninos bestas acreditam nessas histórias. Tá vendo que isso não existe!
            E me encaminhei em direção a ela, já tirando das costas a mochila pesada cheia de mantimentos e papéis. Eu sempre andava prevenido. Sabia que nesse sertão brabo pouca gente me oferecia um “de comer”, não por avareza, mas por insuficiência mesmo. Todos eram muito pobres e com as casas cheias de filhos. Às vezes, eu até doava um pouco da minha comida por sentir pena de tanta pobreza e fome.
            - Ei, seu Zé! Num vá não... a coisa ... é valente! Gritaram os meninos.
            Não me importei. Caminhei em direção a casa ignorando o conselho dos meninos. Estava cansado. As botas doíam nos meus pés, as costas estavam cansadas do peso da mochila e a fome era intensa. Aquele alpendre e o sossego do lugar estariam ótimos para fazer uma merenda, tirar um cochilo e seguir viagem. Cheguei, coloquei a mochila no chão, sentei-me na calçada meio alta, abri a bolsa e tirei de dentro dela um chinelo já meio velho, mas confortável. Descalcei as botas, meti os pés nas chinelas, massageando-os. Senti o ar fresco no meu rosto e olhei na direção dos meninos para chamá-los a me ajudarem a procurar uns gravetos para fazer um fogo. Faria café e na sacola tinha biscoito suficiente para todos. Mas não havia mais ninguém. Eles tinham sumido.
            - Meninos danados. Toda criança é assim. Vive arrumando travessuras pra fazer. Me lembro de quando era criança também quando andava botando cana pros engenhos da região no velho burro trigueiro. Mas isso é outra história. Eu pensei.
            Levantei-me devagar e comecei a procurar a madeira para fazer o fogo, quando ouvi o som de alguém caminhando dentro de casa, como se arrastasse as chinelas no chão. Parei. Ouvi novamente e resolvi olhar por um dos buracos feitos pelas pedras na parede de taipa. Cheguei devagarzinho, pisando leve para não fazer zoada e botei o meu olho no buraco. O que eu vi, não podia acreditar. Andavam pela sala, levantando poeira duas sandálias sem os pés. Elas andavam sozinhas e direitinho, como se pés invisíveis estivessem dando o rumo das passadas. Fiquei paralisado olhando a cena e notei que elas agora vinham ma minha direção. Achei que a parede nos separava, mas não, elas a atravessaram se achegaram bem perto de mim e pararam. Iguaizinhas, como se os pés que deveriam estar ali dentro estivessem juntinhos. Virei-me e fiquei olhando para elas sem saber o que fazer. Lembrei-me das histórias contadas pela minha mãe sobre as almas penadas que viviam assombrando o povo, conversa em que eu nunca acreditei. Lembrei-me também que palavras deveriam ser ditas para que o fantasma dissesse a que veio. Talvez uma promessa feita e não paga ou algum mal causado a alguém... Tomei coragem, e disse:
            - Quem pode mais do que Deus?
            Nada. Elas continuavam imóveis e eu sentia que o dono delas olhava fixamente pra mim. Mas, não sou homem de duas conversas. Esperei um pouco e repeti a pergunta:
            - Quem pode mais do que Deus? Posso ajudar? Me conte o que lhe aperreia!     
            Notei que elas se mexeram. Foram se erguendo no ar e ficaram mais ou menos na altura da minha cintura. Esperei ouvir alguma voz, algum pedido, mas elas investiram sobre mim e me batiam por todo o corpo. Eu tentava me defender, mas não sabia como me livrar delas. As pancadas eram fortes, estava com os braços vermelhos e elas não paravam de me bater.
            Meus amigos... num contei conversa. Não sou homem mole, não tenho medo e nem acredito dessas coisas, mas não tinha outro jeito a não ser correr. Saltei da calçada num pulo e ganhei a capoeira ainda sentindo as pancadas nas minhas costas e pernas. Corri uns cinquenta metros e senti que elas pararam. Parei também e olhei pra trás. Nada. Estava tudo no mais perfeito silêncio. E agora... cadê coragem de pegar as minhas coisas? Esperei uma meia hora pra ver se passava alguém pela estrada que me ajudasse a voltar lá, mas ninguém passou. Não que eu tivesse com medo, não. Tinha receio era de estar incomodando. Como sou cabra macho e num levo desaforo pra casa, voltei e fui pegar as minhas trouxas. Peguei tudo e nada mais aconteceu. Mas também, num demorei muito não. Deixei pra calçar as botas um pouco mais adiante na sombra de uma moita pra não desagravar a pobre da alma penada. Nunca mais passei por lá, mas dizem que elas continuam a surrar quem se mete a besta de sentar naquele alpendre. E juro por Deus... isso é a mais pura verdade!

Texto: Marta Adalgisa Nuvens

Museu de Paleontologia de Santana do Cariri - Ceará

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Reportagem feita pela Tv Diário do Nordeste em julho de 2010

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O exame médico


            Lourdes foi ao médico para fazer uma consulta de rotina.  Lá pelas tantas, ela percebeu, pela cara dele, que alguma coisa não ia muito bem. Enquanto ele a examinava, ela, assustada, aguardava aquela reação do seu semblante traduzida em palavras. As mãos suaram frio, ficou com a garganta seca, mas como cabocla nordestina que era, esperou com cara de paciência a tão aguardada  notícia. Cuidadosamente, ele concluía a consulta auscultando aqui, dando pancadinhas ali, hora pedindo pra ela repetir trinta e três, hora puxando conversas amenas para mantê-la tranquila Até que, depois de medir a sua pressão arterial, deu por encerrada a sua tortura.
            - Quero uns exames mais detalhados. Preciso ver algumas coisas e só com resultado deles é que conseguirei dizer, com mais exatidão, como você está. Disse o médico.
            - Alguma coisa grave, doutor? Ela falou quase sem voz.
            - Aparentemente não, mas como você já passou dos quarenta, é melhor fazermos um check-up. Melhor prevenir do que remediar. Completou ele.
            Lourdes olhava atentamente nos olhos do médico tentando ver se ele lhe escondia algo. Muitas vezes é assim. Os médicos dizem que não é nada e depois a coisa não é tão normal assim. No entanto, agora estava sem jeito. Faria tudo conforme o recomendado. Deixaria para ter medo depois, se preciso fosse. Como dizia a finada sua mãe: “Não devemos correr do bicho antes de vermos o tamanho dele”. O grande problema era que teria de ir a capital.
            - Diabos de interior! Tudo que se quer fazer tem-se que sair daqui. Pensava ela, angustiada.
A grande preocupação de Lourdes era que ela jamais havia deixado o seu interior do interior. O seu pé de serra querido onde criava galinhas, plantava o seu roçado e se orgulhava e quase nunca precisar comprar legumes nas bodegas. Acordava com o sol e não dormia antes ler algumas páginas de velhos romances de M. Delly. Hábito adquirido com a sua mãe. Lourdes era uma mulher simples. Quarentona, nunca casou e quando terminou o curso normal e se fez professora, comprou um terreninho perto de seus pais e passou a morar sozinha. Viajar... quase nunca. Além das viagens que os livros lhe proporcionavam, algumas poucas, aqui e ali quando precisava de médico ou dentista ia para as cidades vizinhas maiores. A escola municipal onde lecionava ficava pertinho. Pouco mais de um quilômetro, trajeto que ela fazia todas as tardes na sua velha bicicleta.
Essa viagem para capital estava lhe tirando o sono. Uma cidade grande, cheia de armadilhas. Ruas a perder de vista, gente que não se conhece se engalfinhando nas calçadas estreitas, barulho de carro, buzinas, prédios enormes... e outras coisas que só se aprende a fazer, olhando os outros fazerem e fazendo depois. Lourdes tinha medo. Medo do desconhecido. Mas pensava. “E quem não tem medo do que não se conhece”?
Finalmente o grande dia chegou. Lourdes chegou a capital. Como tudo já estava encaminhado, era fazer os exames e voltar rapidamente para o sossego do seu interior. Então, a maratona começou. Exames disso, daquilo, raios-X disso, daquilo e finalmente o último exame. Um teste ergométrico. Deixado por último por ser o mais simples.
Cedinho, Lourdes chegou ao consultório. Toda de tênis e de roupa esportiva por recomendação da atendente. Na sala de espera, ela estava apreensiva. Não tinha a menor noção de como ele seria. Mas aguardou com cara de paciência ser chamada. Logo depois, saiu da sala ao lado uma moça de branco com um papel na mão e chamou:
- Dona Lourdes?
- Pronto. Respondeu.
- Pode entrar.
Ela entrou. Era uma sala grande com uma escrivaninha e uma cadeira em um canto, onde estava um médico, uma balança perto da porta e no outro canto uma esteira.
- Coloque aqui a sua bolsa. Disse a assistente.
- Vou colocar uns aparelhos na senhora, colar uns fios, que servirão pra monitorar a sua pressão arterial, seu batimento cardíaco e ver a sua resistência física. Completou ela.
Pediu para que ela se deixasse pesar, colocaram fios nas suas pernas, braços e em cima do coração e pediu que ela se mantivesse calma. O nervosismo podia fazer oscilar a sua pressão.
- A senhora já andou numa esteira? Perguntou a moça.
- Não. Disse ela.
- É simples. Quando eu ligar, a senhora vai andar normalmente. Depois vou colocar mais rápido um pouco, a senhora apresse o passo também. Mas antes, vou deixá-la em aclive, simulando uma pequena ladeira para vermos a sua resistência. Quando a senhora estiver cansada, avisa e eu paro a máquina. Tudo bem?
Ela fez que sim com a cabeça e subiu na esteira. A máquina foi ligada. Quando Lourdes sentiu o chão se mexendo não soube o que fazer. Ficou parada, aflita, toda dura não podia mudar a passada com medo de cair, medo de a esteira acabar e ela ser jogada para fora. O chão passava por ela muito rápido e cada vez mais chegava perto do final. A moça gritou aflita:
- Ande senhora! A esteira está acabando a senhora vai cair!
Lourdes, meio atordoada, começou a esboçar pequenos passos, mas toda retesada não conseguia se equilibrar. Segurou nos amparos laterais com força, tentou ficar de pé normalmente, mas não conseguia. Estava torta, curvada para frente, batia de um lado e do outro na barra de ferro lateral tentando a todo custo se agarrar, se equilibrar.
- Meu Deus, andar aqui, é diferente de andar. Quando andamos, nós passamos pelo chão. Aqui o chão passa pela gente. Pensava ela, aflita.
 Por mais que a moça lhe pedisse calma, lhe mandasse ir pra frente pra não cair por atrás, Lourdes não conseguia ficar ereta. Continuava ainda toda torta, tentando desesperadamente se segurar fosse aonde fosse, mas não conseguia. Foi quando ouviu uma voz:
- Não olhe pra baixo! Olhe pra frente pra ver se dá certo!
Ela ergueu a cabeça e começou a andar. Primeiro, com passos bem pequenos, depois foi conseguindo passos quase normais. Nesse intervalo, ela começou a se preocupar com o som dos seus sapatos na esteira. Eram altos. “Quando se anda, não precisamos fazer barulho”. Pensava ela. Achando que tinha dado muito vexame e que ainda continuava proporcionando sons muito altos, ela começou a andar nas pontas dos pés.
- Melhor assim. Não quero dar mais vexame do que já dei. Ando nas pontas dos pés e não faço ruído.
- Senhora, ande normalmente. Disse o médico com cara de riso.
- Mas... eu ando assim. Estou... normal. Falou ela baixinho quase imperceptível.
- Vixe, como a senhora anda esquisito! Disse o médico já quase sem conseguir segurar uma boa gargalhada.
Lourdes ficou vermelha de vergonha. Continuou o seu “caminhado” por mais uns cinco minutos e resolveu dizer que tinha cansado.
- Já? Disse a moça rindo.
- Mas não se passaram nem dez minutos!
Ela não conseguia mais andar. Não que estivesse cansada. No seu sítio no pé da serra andava infinitamente vezes mais e não se cansava. Era a vergonha de não ter conseguido, de ter falhado numa coisa tão simples. A equipe se entreolhada e ela previa a qualquer hora eles desatarem numa boa gargalhada.
Na sala de espera, enquanto aguardava o resultado, Lourdes, com alguns pontos roxos nos braços de tanto se bater nas barras laterais, pensava no exame.
- Será se dará certo? Foi tão pouco tempo!
Depois que a moça lhe trouxe o resultado. Com olhos e cara de quem tinha rido bastante, ela saiu do prédio. A caminho da casa, foi pensando no ocorrido. Ela nunca tinha passado um vexame tão grande. Exceto aquele em que, não sabendo existir portas de vidro, feriu a testa numa entrada de um cinema. Agora ela era que ria. Ria incontrolavelmente zombando dela mesma por ser tão matuta. Desejava que na sala tivesse uma câmera que tivessem filmado tudo.
- Ah! Seria muito engraçado rever toda aquela cena.


Texto: Marta Adalgisa Nuvens

Parque do Cocó - Fortaleza - Ceará

O Parque Ecológico do Cocó é uma área de conservação, um parque estadual da vida natural localizado na cidade de Fortaleza, Ceará. Perfeito para quem aprecia o verde e longas caminhadas, o Parque do Cocó, com seus 446 hectares, é um dos maiores parques localizados em área urbana da América do Sul. É a principal área verde da cidade, com bosques, um extenso mangue e uma flora e fauna característica.


Imagem: Marta Adalgisa Nuvens

O velório


              Estávamos brincando em frente de casa com os meninos da rua, como fazíamos todas as noites, quando ouvimos a minha mãe chorando. Entramos correndo aflitas e percebemos que ela arrumava apressadamente algumas coisas numa sacola grande, lamentando o que acabara de acontecer. Eu e a minha irmã Baiá nos entreolhamos sem nada entender e perguntamos:
            - O que aconteceu mãinha? Pra onde a senhora vai com essa sacola uma hora dessas?
            - Vou pra casa de comadre Ana. Ela acaba de falecer, tadinha! Uma pessoa tão nova... tão boa... tão prestativa. É assim mesmo... Deus chama primeiro os bons pra perto dele. Gente ruim? Morre tão cedo! Mas uma pessoa como a minha comadre, vai logo pro céu. Dizia ela acabando de arrumar a sacola com mantimentos para o velório.
            Cidade pequena é assim. Quando morre alguém conhecido e todos se conhecem, a cidade inteira vai para casa do defunto onde acontece o velório. Aqueles mais amigos levam ainda o que tiver na geladeira para servir às visitas durante a noite. Eles se distribuem quase sempre da seguinte maneira: Os homens ficam conversando na calçada ou no terreiro contando causos, fumando e tomando café. As mulheres mais chegadas à família ficam na cozinha fazendo café ou chá para servir com biscoitos e ainda preparando panelões de sopa e canja de galinha para os mais famintos aguentarem a noite de vigília.  Como a finada não pode ficar sozinha, porque segundo os mais velhos, defunto deixado sozinho atrai a atenção do demo, aquelas que têm menos intimidade ficam na sala junto com a família fingindo que rezam e observando a reação dos que entram para olhar a falecida e comentar depois. Um prato cheio para fofocas do outro dia. Tudo de valor tem que ser guardado porque tem aqueles que não são nem uma coisa nem outra e vão pra comer e surrupiar alguma coisa que esteja de fácil acesso. Criança não pode ir sozinha. Geralmente ficam em casa cuidando uns dos outros enquanto os pais vão prestar solidariedade à família do morto. Àquelas que vão, passam a noite cochilando pelos cantos porque as cadeiras são para as pessoas mais velhas ou então comendo as guloseimas que são preparadas no decorrer da  noite.
            Eu e minha irmã não fomos. A nossa mãe nos proibiu porque tínhamos medo de fantasmas. Por isso, nosso pai ficou conosco. Quando dormíssemos, como era de costume, ele ia e nos deixaria trancadas e sozinhas. Não tinha perigo de acordarmos sempre dava certo.
            Quando acordamos na manhã seguinte, a nossa mãe já estava em casa preparando o café e nos alertava para que fôssemos para o enterro. Aula não teria. D. Ana havia falecido e todos na cidade estavam tristes. Enquanto nos arrumávamos, ouvíamos uma conversa que vinha da cozinha. Era a voz da minha mãe que dizia:
            - Ave Maria, meu Deus é até pecado isso. Um homem tão bem de vida, com pena de gastar dinheiro com a irmã.
            E a voz do meu pai respondia:
            - Êh, minha velha, a gente só vale alguma coisa enquanto está vivo. Depois? Não prestamos mais pra nada. Vai ver, quando chegar a sua hora, ele vai poder levar alguma riqueza dentro do caixão! Ingrato! Isso é muita ingratidão!
            - O que aconteceu, mãinha? Perguntou a minha irmã.
            - Nada... isso não é assunto pra criança. Respondeu ela meio irritada.
            - E se avie e avie a sua irmã. Quero voltar logo pra casa da minha comadre. Ainda tem muita flor pra fazer coroa. Completou ela.
            Fomos os quatro até o velório sem dizer uma palavra. Seguíamos apressados e calados. A casa da falecida estava cheia. Parentes que tinham chegado durante a noite, estudantes fardados disputando quem levaria as coroas e os arranjos de flores, vizinhos e amigos que esperavam a hora de ir para igreja, para uma costumeira missa de corpo presente e depois descer para o cemitério. Aos poucos as filas foram se formando e por último, entre uma fila e outra, o caixão sendo carregado pelos homens. Uns o faziam por solidariedade ou amizade, outros, por promessa.
            A missa transcorreu sem incidentes. Algumas pessoas chorando, outras conversando, outras rezando, meninos inquietos correndo de um lado para o outro. Finalmente, hora do enterro. As filas novamente eram organizadas, agora pelas professoras. Na frente, iam os estudantes fardados representando seus colégios e depois vinha a comunidade. Ora rezavam o terço, ora cantavam benditos tristes para fazer chorar quem tivesse com vontade. O percurso era curto. A igreja ficava numa parte alta da cidade e bem abaixo ficava o cemitério, entre eles uma escada com vários degraus que os beatos usavam para pagar promessas, fazendo a penitência de subi-los de joelhos. Começamos a descer os degraus, quando de repente começou uma gritaria.
            - Segura! Pega! E pessoas correndo para todos os lados.
            Olhei para trás e vi o caixão rebolando degraus abaixo. O povo que estava nas filas ao invés de tentar fazer alguma coisa para pará-lo corria para os lados temendo se machucarem com a velocidade que ele vinha. Pulei para o lado e ele passou por mim a toda velocidade. Os homens que o deixaram cair corriam atrás tentando, em vão alcançá-lo. A esta altura, a confusão estava generalizada.  Uns corriam pensando poder segurá-lo, outros corriam temendo ser pisoteados, alguns riam incontrolavelmente com a bagunça que se formou e os estudantes gritavam e assobiavam como se fosse uma partida de futebol.
            Finalmente, numa saliência da escada, o caixão parou. Estava parcialmente destruído. A tampa descolada, todo amassado, as flores que estavam em cima da defunta espalhadas ao longo do caminho. Quando as primeiras pessoas chegaram perto dele para tentar fechá-lo e seguir com a cerimônia, notaram que a morta abriu os olhos. Na mesma velocidade que eles vinham voltaram gritando:
            - A morta tá viva... ela abriu os olhos!
Bastaram estas palavras para que todos saíssem correndo em disparada do local. A escada ficou estreita para tanta gente. Era gente para todos os lados que na correria não se importavam de pisar uns nos outros. O que era divertimento para alguns, se tornou motivo de pânico. As pessoas gritavam e corriam escada acima. Até aquelas que diziam não conseguirem subir tantos degraus nas promessas, subiram dois de uma vez em largas passadas. Rapidamente, o local ficou deserto. Os feridos foram socorridos por amigos ou parentes e tirados dali.
Passado o impacto da surpresa, um e outro curioso, de longe ficava nas pontas dos pés, para olhar se via alguma coisa, para saber como tinha terminado tudo aquilo. A ex- defunta tentava se levantar do caixão, mas não conseguia. Estava zonza de tanto ser sacudida escada abaixo. Enquanto isso, a roda de curiosos do alto da escada que a todo instante aumentava, assistia a tudo, mas ninguém tinha coragem de se aproximar. Fazendo muito esforço, ela conseguiu se sentar. Foi mais um momento de pânico e correria para aqueles que já começavam a voltar. Gente se atropelando uns aos outros fugindo com medo do fantasma.  As pessoas que estavam mais ao longe se benziam achando que era realmente assombração, e alguns, achavam ter sido um milagre. Ela havia ressuscitado. Como não conseguia sair do caixão sozinha, ela começou a gritar por socorro:
- Por favor, me ajudem. Eu não morri, não. Vejam, estou viva!
            A multidão não queria conversa. Olhava de longe a agonia dela, mas ninguém tinha coragem de chegar perto. Passado algum tempo, vi a minha mãe se chegando devagarzinho para perto da amiga. Manteve-se a meia distância por precaução e disse:
            - Comadre? Você tá viva ou é assombração?
            - Ei, comadre. Tô quase viva. Acho que quebrei a minha perna. Não consigo me levantar.
            - Como foi isso, comadre? Posso jurar que você tava morta!
            - Tava como morta; ouvia tudo, mas não conseguia me mexer. Até chorei, mas as lágrimas não caíram. Dei um ataque, comadre e ia sendo enterrada viva. Graças a Deus houve esse entropicão que me derrubou e com tanta pancada consegui me acordar.
            - Ave Maria, comadre. Cruz credo! Que coisa horrível. Chegue, vamos levantar.
 Dizendo isso, ela chegou mais para perto, segurou nos braços agora quentes da amiga e fez força para que ela se levantasse. Foi então que lembrou que a roupa que haviam feito para ela se enterrar tinha apenas a parte da frente. O irmão que deveria arcar com as despesas do funeral não dera dinheiro para tal e improvisaram apenas um pano marrom que passava pelo pescoço, cobria os seios e era amarrado na cintura. Como ela havia feito uma promessa com São Francisco, não poderia ser enterrada com uma roupa comum, improvisaram assim. Afinal, ela estava morta mesmo e com as flores que colocariam dentro do caixão, ninguém perceberia nada. “E agora”? Pensou a minha mãe. No momento, ela estava sendo a pessoa mais observada da cidade e estava completamente nua. Olhou quem estava mais próximo e viu a cabeça de Bangá., o coveiro,  escondendo-se atrás de um poste.
- Ei, Bangá, vem cá! Me ajuda! Disse ela.
- Eu? Disse ele meio disfarçado.
- Sim, você mesmo.
- Diz daí, dona Clara. Que escuto daqui Completou ele.
- Vem cá homem mole, preciso da sua camisa pra cobrir as partes de comadre!
- A minha camisa? Num tem outra coisa não?
- Não.
- Num dá pra ela ir assim, não?
- Dá não. Vem logo, me dá a sua camisa.
Ele enrolou a camisa numa pedra e jogou para ela. Minha mãe a vestiu com a camisa e com o pano que ela se enterraria, improvisou uma saia. Levantou-a com cuidado e, segurando no corre mão da escada, foram subindo davagarinho. Ninguém se aproximava. Todos olhavam de longe a cena até que foram aparecendo os primeiros voluntários. Levaram-na para o hospital, pois na queda a defunta quase morria. Quebrou a perna, algumas costelas e ficou cheia de hematomas. Depois disso, por causa da rejeição de algumas pessoas, inclusive da família, e por causa do falatório e das fofocas sobre este fato, não lhe foi mais possível morar na cidade. Teve que se mudar. Mas ainda hoje se comenta o fato e apesar de todo sofrimento e traumas sofridos dizem que ela ainda foi feliz, porque fatalmente seria enterrada viva.

Texto: Marta Adalgisa Nuvens


Parque do Cocó - Fortaleza - Ceará

Imagem: Marta Adalgisa Nuvens

A encruzilhada



         
A noite estava escura, estrada escorregadia, silenciosa. Em tempos de inverno fica assim. Sempre faz muita lama por causa do massapê encharcado pela água da chuva. O Sr. Joaquim seguia montado a cavalo rumo ao seu sítio que ficava perto dali. Cavalo bom, manso, Capricho era o nome dele. Semanalmente, cavalo e cavaleiro faziam esse percurso. Nunca se importou com o que diziam sobre a encruzilhada do caminho pela qual sempre passa. Nunca acreditou nos comentários daqueles que passavam por ali fora de hora. Diziam que era mal-assombrada, que aparecia um bicho preto que ora parecia um lobisomem, ora parecia um minotauro. Às vezes, o bicho aparecia até em forma de um galo bem valente de esporões compridos que corria em direção ao passante abrindo as suas asas e jogando os dois pés na vítima tentando derrubá-la. Ele ria de tudo isso, principalmente deste galo que parecia saber lutar karatê.
Toda semana era assim. Ele vivia vendendo gado para o abate e uma vez na semana vinha receber o pagamento das cabeças que vendera para o frigorífico da cidade. Por seu ofício, era carinhosamente chamado de Seu Quinco da várzea. Durante todo esse tempo, nunca vira nada. Para ele, aqueles que lhe podiam fazer mal eram os vivos e, por isso, ele não tinha nenhuma preocupação, pois não tinha inimigos e não havia ladrões nas redondezas. Andava a cavalo não por comodismo, dizia ele, ou por causa do inverno rigoroso, mas aqueles mais íntimos sabiam que era por causa da grande incidência, nesta época, da aranha caranguejeira. Bicho pelo qual ele não nutria nenhuma simpatia. Às vezes até sentia pena do seu velho companheiro Capricho ser obrigado a vir com ele em um passeio tão curto.
- Meu amigo, bem que você podia ficar se refestelando com capim verdinho molhado com o sereno da noite, do que andar nesse escuro de breu e neste lamaçal, mas... E as aranhas? Melhor prevenir do que remediar. Dizia ele baixinho ao seu velho companheiro, que até parecia entender.
Seguiam davagarinho, sem pressa de chegar. Nos alforjes, pão quentinho para, chegando em casa, tomar com café.
Estavam chegando à famosa encruzilhada quando o cavalo se assustou e estancou. Seu Quinco o instigou, meteu as esporas nele, mas ele assoprou e levantou as duas patas dianteiras.  O homem insistiu no gesto agora lhe aplicando também uma boa chicotada, mas ele se encolheu, relinchou, e saiu andando de costas com as orelhas em pé. O cavaleiro sem entender, pois nunca seu cavalo havia feito isso, tentou novamente forçar para que ele passasse. Capricho empinou e deu uma popa. Seu Quinco se desequilibrou e caiu dentro da lama. Dizem que cavalo quando derruba o dono, geralmente fica pertinho dele, esperando que ele se levante, mas não foi o que aconteceu. O animal voltou em disparada rumo à cidade. Seu Quinco ficou tateando no escuro, tentando se levantar, quando ouviu uns estalos como se fossem galhos quebrando dentro do mato. Olhou na direção do som e nada viu. Com os olhos agora acostumados ao escuro, levantou-se e procurou na sua cintura uma faca peixeira, mas lembrou que a havia deixado dentro do pacote junto com os pães. Estava a pé e sem arma alguma com a qual pudesse se defender. Andou para o meio da estrada e tentou enxergar a causa do ruído no aceiro do mato. A mais ou menos dois metros, um par de olhos que brilhavam no escuro o observava. Instintivamente, levantou os dois braços naquela direção e exclamou:
- Ô bicho! Sai, sai, sai! Os olhos não se moviam. Apenas piscavam.
Seu Quinco, olhando mais atentamente, viu que se tratava de um bicho preto. A princípio, achou ser um bezerro fujão, mas logo percebeu que se tratava de um animal de mais ou menos dois metros de altura. Parecia peludo como um gorila. Sim, parecia um gorila... Era um gorila.
- Gorila? Mas aqui não tem gorilas! Pensou ele agora já com os poucos cabelos da cabeça em pé.
Esfregou os olhos com as mãos tentando ver melhor. O bicho nada fazia. Apenas o observava como se esperasse a hora certa para dar o bote. Ele se abaixou procurando no chão uma pedra que fosse para jogar nele, mas nada de sólido achou. Apenas lama. Encheu a mão assim mesmo e jogou na direção do animal. Este, por sua vez, saltou de lado e a lama não o atingiu. Quando o animal fez este movimento, ele percebeu que tinha visto errado. Não era um gorila. Gorila não tinha chifres.
- Meu Deus! É o tal do minotauro! Vixe Maria... É coisa do outro mundo! Primeiro veio em forma de gorila. Agora se virou nessa coisa! Dizendo isso, pensou em correr, antes que o bicho assumisse a forma de galo com aptidões ninjas, mas com tanta lama, seria impossível.
 Impossível nada. Quem se lembraria desse detalhe com tanto medo? Começou a andar de costas e quando consegui se virar... Pernas pra que te quero! Corria e olhava pra trás e a cada vez que olhava a coisa vinha mais perto. O bicho vinha pega não-pega, pega não-pega... Pegou. Ele sentiu como se fosse um empurrão pelas costas, tropeçou a caiu esparramado na lama. Sentiu o bafo quente no seu rosto e o seu peso em cima dele. Nesta hora, ele sabia que ia morrer. Não era assombração, o bicho era real, podia sentir pelo hálito faminto dele. Começou a rezar baixinho e a pedir perdão pelos seus pecados, quando sentiu uma lambida no seu rosto.
- Ai, meu Deus! Ela vai me comer devagarzinho! Pensou ele, fechando ainda mais os olhos para não ver o tamanho da boca do seu agressor.
Esperou pela primeira mordida já sentindo a sua dor, quando recebeu outra lambida no rosto. Abriu os olhos e viu um bicho preto em cima dele abanando o rabo. Abanando o rabo? Então...
- Sai de cima de mim, cachorro. Você quase me matou de medo, seu desgraçado! Vou lhe dar uma surra por isso! Eu bem que podia ter imaginado que era você quando não entrou na lama atrás de mim!
 Dizendo isso, com as poucas forças que lhe restavam empurrou o cachorro de cima dele e levantou-se. Ele não havia lembrado que o seu cão fiel detestava sujar os pés e por isso sempre evitava andar pela estrada, preferia seguir quem quer que fosse sempre pelo aceiro do mato, onde certamente seus pés estavam protegidos. Ele, coitado, sem nada entender, pulava de alegria em suas pernas, lambia seu rosto, as suas mãos, abanava o rabo e dava pequenos grunhidos de satisfação por encontrar o seu dono. A assombração, agora vista sem medo, era o seu cachorro batizado carinhosamente de Secretário. Ele não tinha, portanto, o tamanho nem a cor e nem a aparência imaginados. O medo, porém, tinha-lhe dado formas inimagináveis.


 Texto: Marta Adalgisa Nuvens




Parque do Cocó - Fortaleza - Ceará


                                                               Imagem: Marta Adalgisa Nuvens

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A promessa

Era uma noite de sexta-feira, já passava das nove horas da noite quando entramos na igreja. O padre encerrava a última missa do dia. Minha mãe, com o terço na mão, procurou se acomodar em um dos bancos na lateral do altar seguida por nós. Levávamos algumas coisas para passarmos a noite. Almofadas, lençóis, café, biscoito, fósforo, água e um vidro com água benta. Íamos pagar uma promessa que ela fizera tempos atrás para alcançar três graças importantes: curar o meu pai de umas mazelas deixadas por uma picada de cobra jaracuçu; curar a sua asma, ela dizia andar puxando o ar para conseguir respirar com melhor qualidade e para que se descobrisse a que a minha irmã era alérgica. A cura do meu pai era a mais urgente; as outras eram doenças velhas e não letais. De certa forma, já estavam acostumadas com elas. O sacrifício era grande para um pedido apenas. Passar a noite na igreja rezando e agradecendo requer coragem. Todos dizem que é um lugar mal-assombrado.
Embora sabendo que o seu marido ainda não estava totalmente curado, ela resolveu pagar o prometido ao santo para ver se apressava a graça. O santo estava lembrado de que ela havia feito todos os procedimentos necessários para curá-lo. Primeiro sajou a ferida e o escondeu numa cabana afastada no pé da serra para que ele não ouvisse nenhum humano.
- Tem gente de sangue ruim. Basta falar para que o sangue do infeliz afine e saia por todos os poros. Nesse mundo tem gente pra tudo! Dizia ela na época.
Depois de oito dias na cabana, fez o segundo procedimento: Levou-o a um rezador curador para que ele, através da sua reza milagrosa, conseguisse amenizar o seu sofrimento. O homem, vendo o seu estado de saúde, sangrando pelas gengivas e com o local ainda muito inflamado, aplicou o remédio. Rezou em cima do ferimento usando um ramo verde sacudindo-o na forma de pequenas cruzes, depois cuspiu na boca do meu pai para matar o veneno da danada. Como o enfermo quase não obteve melhora, ela, por recomendação de uma vizinha que também rezava e curava pessoas, realizou o terceiro procedimento: colocar uma brasa em cima do ferimento, deixar queimar por uns segundos e depois ficar usando um unguento de ervas e raízes. Lembro-me que eu vi a fumaça subir, o cheiro de carne assada se espalhar pelo ar e o grito do meu pai antes de desmaiar. Mas remédio era remédio por mais cruel que fosse.
Agora não tinha mais jeito. Era apelar para os santos. A melhora de meu pai era muito pouca. Estava quase cego, sentia tremores, muitas dores no local ainda inchado e ainda perdia sangue pelas gengivas. Diante de tal quadro, ela fez esta promessa.
Para que ela não ficasse sozinha, eu e a minha irmã Carolina, chamada carinhosamente de Carrôla, a acompanhamos. Carrôla era outra que precisava de uma benção e por isso fazia parte da promessa. Vivia inchada por causa de uma alergia. Teria que ir para uma cidade grande, fazer uns testes e nunca esta possibilidade apareceu. Era preciso que o santo concedesse mais essa graça. Vivia tomando chás e remédios paliativos. Muitas vezes até o mesmo chá feito para acalmar a asma da minha mãe. Doença essa que também precisava ser melhorada. Ultimamente, com tantas preocupações, ela sentia crises fortíssimas.
Terminada a missa, o sacristão se aproximou e nos disse que trancaria todas as portas. Se precisássemos sair poderíamos pular uma das janelas. A minha mãe disse sim com a cabeça para não interromper a reza e ele foi embora.
Igreja fechada, luzes apagadas, apenas umas poucas velas acesas no altar-mor e nos altares laterais. Minha mãe começou a rezar o terço que nós, prontamente o respondíamos. O silêncio era quebrado apenas pelo vento que assobiava passando por baixo da janela dando-nos a idéia de estarmos distante de tudo e de todos.
O sino badalava onze horas e quarenta e cinco da noite, quando escutamos um ruído vindo do coro. Olhamos e nada vimos. Continuamos a rezar, mas o barulho continuava e agora mais forte. Como se fosse um sussurro de várias vozes conversando ou rezando. Olhei novamente e vi um vulto passar. Era de uma mulher. Andava rapidamente fazendo balançar uma saia comprida. Um braço meio afastado do corpo e o outro segurando a cabeça por trás, como se fosse abraçá-la. Um medo enorme tomou conta de mim. Eu sabia que o sacristão havia trancado apenas a gente. Como então explicar a presença dessa mulher? Olhei novamente e vi que a igreja estava completamente tomada por pessoas. Os bancos estavam lotados de mulheres e homens que pareciam rezar. Fiquei petrificada, toda arrepiada, tentei dizer a minha mãe, mas a voz não saiu, tentei desviar o olhar, mas fiquei como se hipnotizada. Com esforço, bati no braço dela e mostrei. Ela olhou e embora tenha ficado também muito assustada, aparentando muita calma, nos puxou para mais perto dela. A minha irmã começou a tremer e como não tinha muito o que fazer, enrolou a  cabeça com um lençol e enlaçou o seu braço no braço da minha mãe. Unidas, parecíamos firmes, mas a igreja enchia cada vez mais. Agora já tínhamos companhia no mesmo banco. Às vezes, abria os olhos e olhava de soslaio. Tinha criança, homens e mulheres na sua maioria com a cabeça enrolada com um xale ou véu e todos pareciam muito sérios, silenciosos no andar e no rezar. Escutavam-se apenas sussurros. O nosso estado emocional era assustador. Tremíamos agarradas umas as outras de olhos fechados por não querer ver tal cena. Não conseguíamos nos mexer.
Meia noite em ponto, as luzes se acenderam. Alguém rezava alto. Olhamos para o altar e lá estava um padre. Todos se ajoelharam e começou uma missa. Carrôla se desvencilhou da minha mãe e correu chorando e cambaleando em direção a janela. Tentamos segurá-la, mas foi tarde. Ela passou pela multidão como um raio e alcançou a janela, tirou a trave que segurava os dois lados, abriu-a e pulou para fora. Ficamos nós duas. Abraçavamo-nos com tanta força que chegava a doer os braços. Fiquei com uma vontade enorme de fazer como a minha irmã, mas mesmo que eu pudesse me mexer, não deixaria a minha mãe sozinha. Não nesse momento em que ela mais precisava não estar sozinha.
            Passaram-se alguns minutos e fomos surpreendidas por um silencio profundo. Abrimos os olhos devagar e tudo estava como antes. Apenas nós duas e apenas as velas acesas nos altares. Tudo tinha sumido rapidamente e somente o vento fazia o seu ruído por baixo das janelas. Mesmo assim, com tudo normal, não conseguíamos nos mexer. Os nossos corações acelerados batiam tão alto e forte que se faziam ouvir. O medo foi grande demais. Estávamos coladas uma a outra. Aos poucos fomos voltando à realidade e conseguimos pensar, pois até sem pensamentos ficamos. Percebi que havia molhado as calças e que tinha cãibra nos dedos e pernas.
            - Mamãe! Francisquinha? Ouvíamos, como se fosse de longe os nossos nomes.
            - Mamãe, estou aqui... trouxe ajuda. Dizia Carrôla pela janela entreaberta.
            Pularam para dentro ela, o sacristão e alguns amigos perguntando o que tinha acontecido e se estávamos bem. Minha mãe ainda trêmula e pálida respondeu:
            - Claro que sim. Por que não estaríamos? O que aconteceu pergunto eu. O que você andou inventando Carrôla?
            Carrôla olhou para ela sem nada entender, olhou para mim e olhou para os amigos que trouxera. Todos olhavam para ela. Ela aflita, repetia:
            - Foi verdade o que lhes contei. Juro que falei a verdade.
            Sob protestos e insultos a turma foi saindo devagar agora já pela porta aberta.
            - Menina mais louca, menina mimada! Se fosse minha filha, ela ia ver. Acordar a gente uma hora destas com uma mentira deslavada? É gostar de chamar atenção! Diziam eles.
Apenas o sacristão ficou em pé, na frente da minha mãe, olhando para ela com cara de desaprovação.
            - A senhora não vai confirmar a história de Carrôla, não? Perguntou?
            - Não. Disse ela.
            - Ela vai ficar por mentirosa mesmo a senhora sabendo que ela não é? Retrucou ele.
            - Meu filho, mesmo que eu confirmasse não acreditariam em nós. Essa história é velha. Todos comentam desde antes, tanto é que eu trouxe água benta porque muitos me alertaram sobre o perigo de se pernoitar nesta igreja. Melhor deixar dúvidas para os que acreditam e minha filha ser conhecida por mentirosa pelos que não acreditam, do que todos nós servirmos de chacota e esta história ir mais adiante. Sei que não é justo para ela, pois ela está sendo sincera e só queria nos ajudar, mas ela fugiu ao nosso acordo. Combinamos antes que o que acontecesse aqui, aqui ficaria.
            O sacristão fez que sim com a cabeça e sentou ao nosso lado. Carrôla chorava copiosamente por tudo o que aconteceu e eu, apenas ouvia. Sem fazer julgamentos, sem ter opinião a respeito, sem conseguir assimilar direito a gravidade ou não do acontecimento. A cabeça zonza, os olhos lacrimejados, as pernas bambas, parecia que tinha sido atropelada por um caminhão.
            O restante da noite transcorreu sem mais novidades. Já era sabido que se algo de paranormal acontecesse seria até a meia noite. O sacristão bem o sabia e por isso ficou conosco o restante da madrugada. Por causa da fofoca que já devia estar solta na cidade, resolvemos sair antes do dia clarear. Além do susto e do medo pelo qual passamos, não teríamos mais condição de responder a perguntas irônicas e muito menos de sermos ridicularizados pelos mais afoitos.
            Depois de uns dias, quando tudo se acalmou. Afinal, qual a cidade pequena do interior nordestino que não conta, com a mais absoluta certeza, uma história de assombração na igreja ou cemitério? E quantas pessoas acreditam e a divulgam com uma pitada de acréscimo para dar maior veracidade a ela? Como dizemos nós matutos: “Contar um causo sem aumentá-lo, sem interpretá-lo não tem graça nenhuma”. Pensei no nosso grande feito. Passamos por tudo isso que nos abalou físico, moral e emocionalmente... ou não passamos? Será que foi fruto da minha imaginação? Ou isto aconteceu realmente? Não sei. Sei apenas que tudo ficou exatamente igual a antes: Pai doente, Carrôla inchada e mãe puxando.

Crédito do texto: Marta Adalgisa Nuvens

Réplica de dinossauro - Museu de paleontologia - Santana do Cariri - Ceará

Imagem: Marta Adalgisa Nuvens

Dias melhores


 
            Todas as manhãs, faça chuva ou faça sol, feriado ou não, seu José passa na rua vendendo bilhetes de loteria. Pela presença assídua ao longo dos anos, já sabemos que é ele quando escutamos, mesmo de longe, o seu anúncio simpático de “bilhete premiado”. Isto é, sabemos nós, apenas aqueles que fazem ponto fixo nessa praça, como eu, como poucos. A maioria, não o vê nem o ouve. Geralmente as pessoas caminham sós e apressadas, ansiosas para chegarem a algum lugar. Possivelmente ao trabalho, já que é uma manhã de segunda-feira e ninguém tinha o ar de quem estivesse simplesmente exercitando o corpo ou a alma procurando românticas sugestões da noite anterior. Todos cronometravam o tempo de cumprir suas obrigações com rápidas olhadelas para o relógio.
            Com todas as observações, senti-me triste pelo caminho que algumas pessoas escolhem ou são escolhidas. Bichos problemáticos somos nós. Com tanto o que se vê numa manhã ensolarada e nem olhamos, sequer percebemos. Preferimos cuidar do nosso egoísmo e nos fechamos para qualquer contato com os outros. Fingimos que estamos sozinhos e ignoramos o próximo. Nem um “bom dia” inexpressivo. Cada um se guarda para si mesmo para a decifração de seus enigmas e dos seus problemas.
            Por um breve instante consegui olhar para dentro de mim. É raro que possamos olhar para dentro de nós mesmos sem a intenção de nos desculparmos de algum ato cometido, sem que queiramos resolver os novos e os velhos problemas acumulados pela rapidez da vida, sem fazer contas, avaliar possibilidades, calcular riscos, sondando ameaças ou remoendo angústias.
            Pensei apenas se eu seria assim também. Se a vida já tinha ressecado os meus sonhos e frustrado as minhas ilusões. Se eu ainda tenho tempo e sensibilidade para ver e sentir as pequenas coisas. Se tivéssemos tempo de ver o mundo e as pessoas com outros olhos, certamente estaríamos agora diante de rostos sorridentes e expressivos e ouviríamos cumprimentos verdadeiros que alimentariam a nossa autoestima. Se tivéssemos tempo de observar o seu José e os seus bilhetes premiados, veríamos que na sua simplicidade de vendedor, ele vendia “sonhos”. Quantas pessoas não se arriscam no palpite da cobra, do gato sonhando com dias melhores? Esperando o dia em que não esperariam mais uma vida mais calma e mais confortável, as manhãs mais longas e mais coloridas... Na verdade, vivemos esperando...
            Vivermos esperando dias em que seremos melhores e que não tenhamos mais medo de nós mesmos. Dias em que possamos sonhar o sonho mais impossível na certeza de que ele poderá ser a realidade. Dias em que preservar valores sejam mais importantes e mais úteis do que preservar riquezas. Dias em que seremos valorizados pelo que somos e não pelo que parecemos ter.
            Vivemos esperando a sensibilidade e o bom senso no coração dos homens e pouco fazemos para romper as barreiras da ignorância, do racismo, da discriminação, do preconceito e da ganância de muitos.
            O que observamos não apenas nas manhãs, mas sempre são pessoas que caminham apressadas e indiferentes, sofredoras solitárias, pontos opacos na multidão cometida pelo tédio.
            Na verdade, vivemos esperando...

Texto: Marta Adalgisa Nuvens

           

Réplica de Pterossauro - Museu de paleontologia - Santana do Cariri - Ceará

Imagem: Marta Adalgisa Nuvens

O seu sorriso

   

É hora de ir. Levantar acampamento e seguir viagem. Recolher os sonhos e reembalá-los em papel de presente para o próximo encontro.
É hora de ir. E não se trata de pressa. Quando armei a minha barraca de esperanças em frente ao seu sorriso, sabia que ia esperar. Era uma espera gostosa acalentada pela sua voz e iluminada pelo seu sorriso.
É hora de ir. Não se trata de querer. Nem sempre fazemos o que queremos. Às vezes fazemos o que se é necessário fazer para não reduzir pela metade o tamanho do sonho que sonhamos ter.
É hora de ir. Não se trata de gostar. Tudo o que eu queria no momento era continuar a acordar com o seu sorriso e a dormir com o perfume dos teus cabelos.
É hora de ir. E não se trata de ser forte. Percebi que o seu sorriso já não era mais meu, que seus olhos já não me olhavam como antes, que o seu pensamento já não pensava mais em mim como pensei.
É hora de ir. Mudar de ares, ver outras paisagens, precisar estar sozinha para observar o tamanho do vazio que será viver sem o seus sorrisos. Sorriso de quando me via, sorriso de quando conversávamos, sorriso de uma piada boba, sorriso de gozação, sorriso de consentimento, sorriso de cumplicidade, sorriso de quando eu tropeçava nas sílabas das palavras.
É hora de ir. Encarar a realidade. Curar minhas feridas deixadas pela ausência do seu sorriso. E seguir viagem. Não procurarei mais sorrisos, depois dos seus, outros não existem. Procurarei por mim. Eu me perdi em alguma parte do caminho ouvindo um sorriso que parecia ser seu.

Texto: Marta Adalgisa Nuvens

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Museu de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri

O Museu de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri é um museu que abriga acervo paleontológico oriundo da região do Cariri e pertencente a Universidade Regional do Cariri (URCA). Esta situado na cidade de Santana do Cariri, Ceará. Principal ponto turístico desta cidade, reúne mais de 750 peças datadas do período cretáceo, há 65 milhões de anos atrás.


Imagem: Marta Adalgisa Nuvens



Santanaraptor (Santanaraptor placidus, em latim Predador de Santana) foi um dinossauro terópode (carnívoro), bípede e de tamanho modesto que viveu há cerca de 110 milhões de anos no nordeste do Brasil, mais precisamente na formação Santana, Bacia do Araripe (CE).

Uma lição de vida

                       

                              
            Tem coisas na vida que nunca conseguimos esquecer. Passam-se os anos, crescemos, tomamos as rédeas da vida, mas elas nunca se apagam, ficam sempre guardadas na nossa memória e, às vezes, até mergulhamos nelas como uma forma de rejuvenescimento ou, quem sabe, como forma de retornarmos as bases que nos tornaram fortes.
            Estávamos chegando. O vento soprava meus cabelos através da janela aberta. Meu pai dirigia devagar, com muita atenção no trânsito, sem se importar com a minha ansiedade de chegar logo ao shopping, ver montanhas de brinquedos, brincar no parquinho perto da fonte luminosa, comer chocolates e mais chocolates e finalmente, escolher o brinquedo que eu quisesse. O primeiro brinquedo que poderia escolher não podia ser qualquer um. Teria que ser muito especial; colorido, macio, bonito e que causasse inveja a Aninha por não possuir um igual. Estou com oito anos e nunca escolhi um brinquedo. Sempre escolhiam para mim, dependendo do preço e apenas nas duas datas mais importantes do ano: natal e meu aniversário. Mesmo assim, eu achava muito bom ganhar presentes. Saia correndo para mostrar aos meus vizinhos e a minha avó que morava pertinho de mim.
            Naquele tempo era muito bom. Não tínhamos dinheiro, mas morávamos numa viela cheia de crianças onde eu tinha muitos amigos e morava perto da minha avó. Minha avó me foi sempre muito especial. Ela era carinhosa, meiga, paciente com minhas travessuras, sempre me defendia das broncas do meu pai e sempre me acolhia no colo macio quando não estava por perto para me defender das brigas.
            As brigas eram constantes. Geralmente liderava as brincadeiras de rua com toda a meninada o que me fazia constantemente ter que mostrar o meu poder de domínio. Era a lei do mais forte e os mais frágeis obedeciam. Nem que para isso a minha mãe vivesse sempre tratando dos meus arranhões, inchaços, galos na cabeça e dedos esfolados de topadas nas pedras. A minha liderança ia além da viela. Embora eu fosse mandona e birrenta, todos adoravam me ter por perto. As minhas brincadeiras eram mais divertidas.
- Chegamos, disse meu pai, ainda contornando a curva que dá acesso à avenida.
Olhei a rua meio atordoada acordando dos meus pensamentos.
O dia estava claro, a rua cheia de pessoas, de carros, de sons. O meu coraçãozinho batia apressado pensando em todo o encanto que seria este dia. Finalmente comprar o meu primeiro brinquedo, escolher sozinha aquele que eu quisesse sem ter que pensar em nenhuma condição que me levasse a não querê-lo.
           O shopping era enorme. Parecia uma cidade pequena cheio de ruas e de pessoas entrando e saindo das lojas cheias de pacotes. Tudo era muito limpo, as paredes, na sua maioria, eram de vidro de todos os formatos e cores. O corredor central parecia uma praça com vários bancos grandes de madeira e perto de cada banco pequenas barracas em que se vendia de tudo: artesanato, revistas e jornais, comidas típicas, perfumaria, lembrançinhas. Na praça central, além de uma fonte luminosa bem bonita, tinha também um pequeno parque cheio de crianças brincando nos vários brinquedos ali instalados.
           Eu estava encantada com tanto brilho, tantas luzes e tantas lojas bonitas com moças simpáticas esperando na porta dispostas a mostrar todos os brinquedos e a vender um a qualquer custo. Eu não tinha idéia do que compraria. Sabia apenas que seria, com certeza, uma coisa muito especial, que me ajudasse a suportar a falta que os meus amigos me faziam nesse bairro e nessa casa novos, já que eu não tinha conseguido trazê-los por mais que tentasse; mostraria apenas a Aninha como se fosse um troféu que há muito tempo queria conquistá-lo.  Entramos e saímos, fomos e voltamos, paramos, perguntamos, olhamos várias e várias vezes. Eram tantas opções, tantos brinquedos que alguns, eu nem saberia como usá-los direito. Tinha bonecas que falavam, andavam que tinham o seu próprio enxoval completinho inclusive com a sua casinha e seus móveis. Tinha cachorrinho que latia, andava, levantava a perninha para fazer xixi; tinha uma infinidade de bichinhos que funcionavam à pilha ou à corda que andavam, davam cambalhotas, sorriam, choravam, falavam; tinha jogos, bolas, petecas, bicicletas, material de pintura, enfim, tinha tudo o que se imaginasse. Como qualquer criança, eu cheguei sem saber o que comprar, agora, diante de toda essa variedade, a minha cabeça ficou ainda mais confusa.
        - Vamos ver se você se decide Simone, não temos a tarde inteira só para escolher um brinquedo. Dizia meu pai, acho que mais cansado de tantas idas e vindas do que mesmo aborrecido com o passeio.
       - Deixa a menina escolher sossegada, homem. Você não sabe como ela é? A cada dia tem um pensamento diferente! Imagine aqui, com esse mundão de coisas para se ver. Até eu estou confusa! Disse a minha mãe.
       -     Papai, me compra um chocolate! Estou com fome.         
              -     Fome nada, eu te conheço! Acrescentou o meu pai sorrindo.
     Sentamos ao redor de uma mesinha na praça de alimentação e enquanto meu pai escolhia o que iríamos comer, a minha mãe me dava conselhos sobre qual brinquedo seria mais útil, mais resistente, menos barulhento e, é claro, mais barato. Fizemos um lanche rápido e voltamos à maratona nas lojas a procura de um brinquedo que somasse a quantidade maior de qualidades exposta pela minha mãe.
       Depois de várias horas, finalmente algo me chamou a atenção meio escondido em um cantinho de uma loja. Achei-o lindo e apontei-o para a minha mãe. Minha mãe foi direto a uma bicicleta vermelhinha que também estava naquela direção e começou a examiná-la procurando algum defeito de fabricação. Examinada com cuidado, ela foi liberada e aprovada para que eu a comprasse.
        -  Moça! Quanto custa essa bicicleta? Perguntou mamãe à atendente.
Foi então que eu percebi que ela não tinha entendido o meu gesto. Eu havia lhe mostrado um urso de pelúcia que estava naquela direção. Ele era lindo. Todo preto e branco, imenso, macio e parecia que me acompanhava com os olhos. Tirava os olhos dele e disfarçadamente olhava para outro lado; tentava surpreendê-lo olhando de repente novamente e lá estava ele, olhando para mim como se me pedisse para ir comigo.
        - Mamãe! Não é a bicicleta... é aquele urso  de pelúcia!
        Minha mãe ficou surpresa com tal escolha. Tinha ouvido durante vários dias que seria uma escolha especial de um presente também especial. Bem, coisa de criança. Pelo menos ela não teria a quem reclamar, a quem atribuir os defeitos depois que ele se tornasse velho, como sempre aconteceu com todos os seus brinquedos. Ela o havia escolhido. Pensando assim, ajudou-me a resolver tudo e voltamos felizes para casa. Eu, por ter escolhido um urso que olhou para mim com seus olhinhos de pedido, olhinhos de carinho... Seria o meu companheiro. E os meus pais, porque finalmente aquela tortura de me seguir pelos corredores horas seguidas sem saber nem o que compraria, tinha acabado. E o que era melhor: Eu estava feliz.
      Eu o ensinaria tudo: a andar, a falar, as minhas brincadeiras prediletas... Como nos desenhos animados que eu assistia. Sim... seria o meu companheiro. Ele não substituiria toda a meninada do meu antigo bairro, isso seria demais, mas eu o tornaria o meu assistente obediente e amigo como os outros foram.
       Os dias se passavam e eu não conseguia nenhum progresso. Ele não aprendia nada. Mamãe sugeriu que talvez fosse a falta de um nome e o batizou de Magali. Nome da personagem de um livro que ela acabara de ler e que gostara muito. Eu o chamei então de Rabicó, o porquinho danado do Sítio do pica-pau amarelo. De nada adiantou a nossa tentativa. Ele ficava sempre olhando o que eu fazia, escutava atentamente o que eu dizia, mas nada aprendia. Dentre outras coisas tentei suborná-lo. Ofereci-lhe mel. Todos os ursos gostam muito de mel. Pelo menos Zé Colméia gosta muito. Prometi-lhe passeios na garupa da minha bicicleta, levá-lo à escola qualquer dia para que ele conhecesse os meus colegas, prometi-lhe até que iríamos ao parque toda tarde brincar no melhor brinquedo: o escorregador. Nada. Ele só olhava para mim. Durante todos esses dias ele nem tinha aprendido a falar ainda. Eu que tinha que falar tudo sozinha.
       Um dia, já cansada e com raiva de tanto repetir, repetir, repetir, resolvi pedir ajuda. Levaria para que a minha avó o examinasse. Como ainda não tinha pensado nisso? Ela saberia o que fazer. Ela sempre sabia o que fazer. Ela era sábia e usando de toda a sua sabedoria e paciência, saberia como torná-lo esperto também. Vovó o examinava bem devagar. Olhou as suas pernas, pois eu queria que ele andasse comigo, corresse, andasse de bicicleta, jogasse futebol... que ele fizesse tudo o que eu faço e para isso, teria que ter as pernas fortes. Olhou os braços, as orelhas, a boca... será que o defeito não estaria na boca? Pensei. Não! Se assim fosse, ele poderia pelo menos andar. Eu não tirava os olhos dela. Observava tudo com o maior interesse, afinal era a vida de Rabicó que estava em jogo... ou a minha? Ela fazia cara de preocupada, dava tapinhas nele, balançava a cabeça negativamente, mordia os lábios, dizia palavras baixinho como que balbuciando uma oração... Eu a admirava e tinha certeza que daria certo. Ela era a mulher mais esperta que eu conhecia.
       Depois de algum tempo, ela deixou Rabicó em cima da cama, veio sentar-se pertinho de mim e oferecendo-me o seu colo falou:
      - Filha, sei que depois que vocês se mudaram você está se sentindo muito sozinha. Seus amigos ficaram aqui, eu fiquei aqui e você se sente como se fosse a única menina no mundo. Mas não é assim. Você vai se acostumar, fazer novas amizades, aprender novas brincadeiras, me visitar sempre que quiser e tudo vai voltar ao normal. Seria bom que déssemos uma vida a Rabicó, mas seria bom apenas pra você que teria um amigo bem diferente para exibi-lo aos seus amigos e para que eles invejassem você. Mas para ele... Será que seria assim tão bom? Quando você crescer perceberá que gradativamente construímos a nossa vida e que ela não ficará do jeito que nós queríamos. Ela terá coisas boas e coisas ruins que nós não poderemos evitá-las. Poderemos preferir as boas e que para isso, teremos que atraí-las para perto de nós. Como poderemos fazer isso? Fazendo coisas boas aos outros, aprendendo a gostar deles como eles são e a respeitá-los por eles serem diferentes de nós. Se não podemos ajudá-los não devemos atrapalhá-los. Aprender que o que somos é mais importante do que o que temos. Que ganharemos muitas coisas, mas perderemos muitas coisas também e isso fará com que nos tornemos mais fortes. Hoje, você chora por um brinquedo que não deu certo, que não correspondeu ao que você esperava dele, ou seja, pela decepção de ter escolhido errado. Fará isso outras vezes na vida. Tenha sempre o cuidado de se enganar ou de se arrepender por coisas que você possa refazê-las e ter a sensatez e a humildade de reconhecer o erro. Errar, arrepender-se e recomeçar faz parte do ser humano. Ninguém é perfeito. Lembre-se sempre: Se só plantarmos o bem, certamente só colheremos o bem.
       Naquele momento, a minha cabeça de menina não se importou com estas palavras, mas com o passar do tempo, eu percebi que elas me ajudariam a me tornar quem sou hoje. Guardo-as comigo até hoje e sempre que tropeço, lembro-me delas e guio-me por elas.

Texto: Marta Adalgisa Nuvens