segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Àrvore da Preguiça - Jericoacoara - Ceará


Crédito da imagem: Marta Adalgisa Nuvens


Os anjinhos


            Era uma vez três meninos inseparáveis. Duas meninas e um menino eram irmãos na genética e nas travessuras. Todos na vizinhança tinham queixas: era galinha com pernas quebradas para se treinar como remendar ossos, cavalo de rabo cortado para se treinar uma nova estética, cachorro de pelo raspado para se treinar aplicação de injeções, pomares invadidos e saqueados... enfim toda sorte de traquinagem eles faziam. Podia-se pensar que era negligência dos pais, mas não. Eles eram austeros e os repreendiam sempre. Era meninice mesmo.
            Chegadas as férias escolares, os pais bolaram um plano para conter, pelo menos pela metade, as travessuras do trio, que tinha fama consagrada na redondeza pelo apelido de “Os anjinhos”. Apelido esse que dava maior ênfase à aparência; já que eles tinham cachinhos loiros e ondulados como anjinhos barrocos, carinha de anjo e de uma meiguice inacreditável. Tratavam sempre bem a todos, principalmente os mais velhos, às vezes até fazendo-lhes favores. Baseados nisso, Seu João e D. Laura arquitetaram um plano: Todos os dias eles iriam procurar nos arredores do sítio e até nos sítios vizinhos, pois não adiantaria dizer que não invadissem as terras vizinhas, preás para D. Julia que estava enferma, morava sozinha já na velhice e apreciava muito a carne desse  bichinho.
            Tarefa aceita de bom grado, começou a caçada. Primeiro descobriram as trilhas dos animaizinhos e armaram fojo, uma espécie de arapuca em que se cava um buraco, coloca-se uma tábua com fixação apenas no meio, como se fosse uma gangorra e, em seguida, cobre-se com terra. Quando eles pisam, a ponta da tábua cede e eles caem no buraco. Armadilha instalada era só esperar o final da tarde e ver o quanto se tinha capturado no dia. Mas isso era pouco. E o restante do dia? Mantê-los ociosos era muito arriscado. Então lhes foram dadas também autorização para capturá-los nas terras que haviam sido queimadas para o plantio. Nas chamadas brocas comuns nessa época que antecede a época das chuvas. Como o fogo é ateado em circulo, nem sempre eles sabem pra onde correr terminam ficando sem opção de saída e entram nas tocas.
            E foi numa das brocas visitadas por eles que tudo aconteceu. Eles descobriram um buraco que tinha a metade de um preá obviamente queimado, mas ao retirá-lo, perceberam um outro que também estava morto. Esse por asfixia ou pela temperatura, pois o seu corpo estava intacto e resolveram investigar melhor. Quem sabe não encontrariam mais e em melhor estado? A toca era estreita e não cabia a mão do menino, então coube a mais nova do grupo a incumbência de meter a mão e retirar outros que ali houvesse. Ela meteu a mão novamente e percebeu que havia um vivo e foram armar uma estratégia de capturá-lo.
            Foi decidido por unanimidade que ela se deitaria no chão para que o seu braço ficasse mais bem posicionado, seguraria as perninhas dele com firmeza e o puxaria com rapidez. Ele deveria estar de costas e não iria poder mordê-la. Os outros dois anjos estariam aguardando com paus nas mãos para matá-lo a pauladas logo na saída antes que ele tivesse tempo de retornar para dentro do buraco, já que ela ia soltá-lo para que as pauladas não atingem a sua mão. E assim foi feito. Ela deitou-se no chão, colocou a mão buraco adentro, pegou em uma das pernas do animal e como o seu rosto tava muito próximo das futuras pauladas, disse:
            - Peguei! Vou puxar, soltar e rolar do lado aí, vocês matam ele.
            Quando ela puxou e soltou as pernas do bicho foi que percebeu que o tal bicho não era um preá. Era uma aranha caranguejeira enorme que zangada ou assustada, tinha as patas dianteiras levantadas prontas para o ataque. Vista de tão perto ela parecia enorme de pelos eriçados pronta para arremessá-los na sua direção. Ela ficou paralisada. Não podia rolar para o lado, como o planejado, não podia gritar, não podia sequer fechar os olhos e evitar ver a tudo isso. A equipe das pauladas havia corrido também pelo medo e pela surpresa e gritava de longe que ela fugisse dali. Passados alguns segundos que pareceram horas, a aranha voltou para dentro da toca, mas ela continuava lá na mesma posição de antes. Sentia vontade de chorar, de gritar, de correr, de ver se tinha sido atingida por alguns pelos ou alguma mordida, mas não conseguia. Continuava imóvel paralisada pelo medo. Seus irmãos voltaram, a ajudaram a levantar e a sacudiram para ver se ela pelo menos piscava e nada de ela responder aos estímulos dos gritos e safanões impostos pela dupla. Então se lembraram que numa novela uma atriz ficara assim e tudo se resolveu com umas boas palmadas no rosto dela. E uma chuva de tabefes estalou no seu rosto fazendo-a acordar. Só então ela conseguiu chorar. Pela surpresa, pelo medo, por ter sido abandonada pela equipe, pelos tabefes... por tudo.
 Para os outros dois, o pior já tinha passado, mas ainda tinham que enfrentar a sua mãe e explicar o estado da irmã mais nova e ausência de preás naquele dia. Prometeram-lhe mais umas boas tapas se ela contasse e a levaram para casa. Como nada nesse mundo fica oculto por muito tempo, o estado de choque da menina e a febre alta durante a noite, tinha que ter uma explicação. E teve. E a partir de então o trio de travessura sofreu um ajuste. Embora as brincadeiras tenham continuado nada mais de aventuras ou brincadeiras de meter a mão nos buracos porque ainda hoje esta menina, embora já adulta, tem fobia de aranhas.

Texto: Marta Adalgisa Nuvens

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Beach park - Fortaleza - Ceará


Crédito da imagem: Marta Adalgisa Nuvens


Pensar em você


            Pensar em você é como sentir o calor das manhãs ensolaradas nas areias de uma praia deserta em dia de mar calmo. É sentir o vento no rosto, ouvir o barulho da água e mergulhar nas piscinas formadas pelas ondas.
            Pensar em você é sentir preguiça de levantar numa manhã chuvosa.  Sentir o seu corpo se enroscar ao meu procurando calor e carinho. É ouvir como um sussurro o seu gemido baixinho de conforto e de aconchego.
            Pensar em você é a tranquilidade de uma música clássica, o encantamento de uma paisagem verde com uma pequena cachoeira; a convivência com o simples, o comum, o belo.
            Pensar em você lembra a harmonia de uma noite de inverno, perto da lareira, tomando vinho, conversando sobre qualquer coisa que nos dê prazer e desejando que esse momento seja eterno.
            Pensar em você é sentir paixão, vontade de ficar junto... É vontade de continuar essa convivência tão singular que construímos até aqui. É ter a certeza de que sem você serei uma pessoa sem cor, sem brilho, sem graça.
            Pensar em você é ter a alegria de saber que amei na vida enquanto muitos passam por ela sem sentir todas essas sensações que o amor nos mostra e saber descrevê-las uma a uma.
            Pensar em você é escrever para que a sua presença se torne mais concreta, para que eu registre a sua passagem pela minha vida, é ter a pretensão de que, aqueles que leem lhe imortalizem também.
Pensar em você é pensar em mim. No quanto eu cresci com a sua convivência, no quanto me transformei em uma pessoa mais coerente, mais humana, mais sábia, mas feliz perto de você.
Pensar em você é desejar que tudo isso que eu sinto seja sentido e desejado por você também e que a nossa história ultrapasse as barreiras do tempo, das cores, das emoções, do imaginável e do infinito...
Amo você.

Texto: Marta Adalgisa Nuvens

Pedra furada - Jericoacoara - Ceará

Crédito da imagem: Marta Adalgisa Nuvens

O milagre



            Jacinta era uma moça de boa índole, bem nascida, bem criada, frequentou as melhores escolas, fez os melhores cursos, Tornou-se uma moça intelectualizada para a sua cidade do interior, na qual a população não valorizava muito uma educação assim tão esmerada. Estudar desse tanto, diziam “é pra gente que não tem o que fazer” “é pra gente que tem o miolo mole”. Mesmo sendo tratada com diferença pelos conterrâneos, ela era uma moça feliz. Convivia bem com todos e todos a tratavam bem. Mas, Jacinta era uma moça sozinha. Não conseguia arrumar uma companhia e isso a deixava triste. Embora fosse meiga, solidária, boa ouvinte e boa conselheira, isso não aumentava as suas chances de arranjar um bom marido... um namorado sequer. Os rapazes fugiam dela. Primeiro porque era muito feia, segundo, porque era sabida demais. Os rapazes se intimidavam com tanta inteligência.
Um dia, ela resolveu apelar para o santo da cidade, São Bom Jesus da Serra. Diziam que ele era casamenteiro e que moça que frequentasse as suas novenas, saberia logo se casaria ou ficaria no caritó. Então ela decidiu participar da sua festa anual para acabar de vez com essa procura. ‘“Com o santo, não tinha engano, ou ata ou desata, era pei bufo”, diziam. Comprou roupa nova como todos fazem e no dia 14 de setembro, o seu dia, subiu a serra, pelas escadas, para o santo visse que estava bem intencionada e foi para os festejos. Era uma festa tradicional. Todos os anos tudo se repetia exatamente igual, a não ser, naquele ano pela presença de Jacinta. Primeiro tinha uma missa na capelinha, lugar e hora de agradecimento pelas graças e favores alcançados, depois tinha a queima de fogos de artifício celebrando os festejos e em seguida um leilão sob a sombra de um visgueiro centenário onde as famílias se reuniam arrematando prendas, matando a sede com bebidas geladas e matando a fome com comidas típicas. Era nessa hora que Jacinta se mostraria mais. Na hora do entretenimento, da distração de todos. E ela estava certa. Foi nessa hora que os seus olhos se cruzaram com os olhos do motorista do caminhão de romeiros. Foi um momento mágico. Parecia mesmo que tudo acontecia sob a influência e as bênçãos do santo.
O rapaz se aproximou depois de muitos olhares e começaram a conversar. Ambos tímidos, talvez pela falta de costume, pois na beleza ou, melhor dizendo, na escassez dela eles eram iguais. Conversa vai, conversa vem, resolveram se afastar um pouco mais do grupo, o barulho era grande e eles, nesse momento, precisavam de um lugar mais tranquilo para que se conhecessem melhor. Saíram passeando devagar, parando aqui acolá pra que ela lhe mostrasse o lugar e a história dele. Era uma serra bonita coberta de verde, de clima ameno e de uma vista panorâmica de cortar o fôlego. Via-se todo o vale, os pequenos rios, as estradas se entrecortando e as pequenas comunidades lá em baixo. Sentaram-se numa pedra à beira do abismo mais afastada ainda de todos e partiram para os preliminares de um romance que, pelo visto, parecia ser duradouro, a julgar pelo interesse mútuo.
Mas, como diz o dito popular: “Quem nunca come mel, quando come se enlambuza”. As carícias e as vontades foram além do limite e numa investida menos despudorada do motorista e num disfarce de pudor da moça, ela recuou mais do que devia, perdeu o equilíbrio e tombou serra abaixo. Ele a via despencar precipício abaixo como uma folha de papel ao vento devido a sua magreza e o seu vestido novo que se encheu de ar. Ficou desesperado. Gritou, chamou a atenção e muitos correram para ver o acontecido. De Jacinta nada mais se via. Desceu. “Espatifou-se nas pedras” muitos pensavam, choravam e torciam para que o pior não tivesse acontecido. Outros pensavam: “Foi empurrada, coitada”! “Feia do jeito que era o rapaz não quis, ela insistiu e ele a empurrou”. Nesse intervalo, muitos já corriam serra abaixo para ver o resultado triste da alegre Jacinta. Os primeiros que chegaram ao suposto local de colisão nada viram. Procuravam por todos os lugares e nada de Jacinta. Uns calculavam a trajetória do vento e na possível mudança de local, outros, impacientes, formavam grupos de buscas para ver se ainda a encontravam com vida. E foi uma dessas equipes que, nas buscas, ouviram um pequeno gemido no alto das suas cabeças e a viram pendurada numa árvore presa num galho por seu vestido novo. Imóvel, com medo de se mexer e cair daquela altura ainda considerável, não gritava por socorro, apenas gemia baixinho.
E foi assim que se deu o milagre. Para os católicos, o milagre foi do santo que não a deixou morrer; para os ateus, o “milagre” foi do vestido novo que resistente a prendeu nos galhos de uma árvore igualmente resistente e para os românticos, o milagre foi do amor e da vontade de vivê-lo depois de tanto tempo de espera.

Texto: Marta Adalgisa Nuvens

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Passeio Público - Fortaleza - Ceará

Imagem: Marta Adalgisa Nuvens

Inocência perdida


Hoje senti saudades de mim. Da minha infância saudável e cheia de travessuras todas compartilhadas e auxiliadas por você. Virávamos o mundo, pintávamos o sete na maior cumplicidade. Sem medos, preocupações ou problemas. Na nossa família irmãos brincavam com irmãos, irmãos protegiam irmãos, irmãos defendiam irmãos. Éramos inseparáveis. Íamos juntos para escola e como ela era distante, vínhamos brincando sem nos importarmos com o sol do meio-dia, com o calor insuportável que fazia. Éramos crianças; o importante era a nossa companhia e a nossa criatividade de inventar brincadeiras. Caçar passarinho de baladeira pela aventura de ir, não de matar. Pastorear as cabras, as vacas brincando na sombra do pé de tamburi fingindo sermos grandes fazendeiros. Construíamos miniaturas de cercados com talos de cana-de-açúcar, procurávamos as pedras mais bonitas para representar o rebanho e nos transformávamos em ricos fazendeiros. No inverno tomávamos banho de chuva, na seca íamos para a nascente chamada carinhosamente de bica ou íamos para a cacimba tomar banho “de susto”. Você me trazia a água e eu lhe trazia água. E foi nesse momento que nos fizeram ver que éramos diferentes. Eu era menina e você menino; detalhe nunca antes percebido sexualmente. Maldade do mundo adulto. Até então éramos apenas crianças. Lembro-me de estarmos nus “esquentando sol” depois de um banho de água fria, conversando sobre qualquer coisa, quando aquele homem, vendedor de galinhas, nos fez sentir vergonha da nossa inocência. Eu lhe olhei e você me olhou e nos vestimos envergonhados por sermos diferentes.
Não perdemos o costume de antes de dormir conversarmos longamente e de nos acenarmos desejando um “boa noite”, mas os nossos banhos que se sucederam nunca mais foram os mesmos. Algo tinha se quebrado após a observação daquele homem. A liberdade para algumas brincadeiras e a imparcialidade para algumas escolhas, havia se perdido.
Crescemos. Ficamos adultos. Eu optei pelas letras, gostava de estudar. Comecei a me interessar e a perceber os caminhos para um bom texto. Aquilo que os pintores traduzem com pincel e tintas e que os escritores traduzem com a organização das idéias e das palavras.
 Você não, gostava da natureza, das plantas, animais e eles lhe gostavam também. Era uma sincronia jamais vista. Você se tornou um grande aprendiz e conhecedor de plantas medicinais, plantas ornamentais, comportamentos de animais... Enfim, um estudioso empírico da natureza, um conhecedor de ventos, luas, sóis, chuva e estiagens. Casou, teve filhos; fez a sua história.
Eu construí o meu caminho... e por incentivo das letras vim parar na capital. Estamos distantes... ficamos distantes geograficamente, mas o nosso amor é eterno. O nosso bem-querer resiste a chuvas e tempestades, as adversidades que a vida nos apresenta; como o tempo, o lugar e as escolhas. Mas, pelo resto da vida, isso ficou marcado. Uma simples frase dita por um vendedor ambulante, mudou o rumo da nossa infância até então, inocente.

Texto: Marta Adalgisa Nuvens

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Praça do Ferreira - Fortaleza - Ceará

Imagem: Marta Adalgisa Nuvens

E nós aonde vamos?

         Não é preciso ser educadora para constatar que a educação é a base de tudo. Todos reconhecemos isso; a sociedade, os profissionais da educação, a comunidade escolar, a mídia, os governantes. Somos alertados ainda mais nesta época de campanhas políticas. Eles, os candidatos, identificam o erro, prometem mudanças urgentes e nada acontece. A falta de vontade política associada à falta de interesse de boa parte da sociedade em melhorar esse quadro, compromete o futuro dos jovens que crescem sem opção de escolhas. Sem uma educação de qualidade e sem qualificação profissional, o mercado de trabalho torna-se cada vez mais distante. Torna-se um sonho, uma utopia. De dois em dois anos nós os elegemos em busca de melhoras, mas um povo sem consciência política termina escolhendo àqueles que não têm compromisso em trazer melhorias coletivas, apenas visualizam as melhorias pessoais.
A preocupação da maioria dos políticos é com a estatística do índice de analfabetismo colocando como alfabetizado todo aquele que sabe desenhar o seu nome. Para ele não interessa se o cidadão é letrado ou não E não sendo letrado exerce realmente a plena cidadania? Sem o cesso as letras ele realmente sabe decidir sozinho? Ele sabe da importância de não comercializar o seu voto? Vivemos numa democracia e vence aquele mais votado. Será que para eles não é melhor assim? Ter dinheiro para comprar votos ou barganhá-lo por uma dentadura é bem melhor do que discutir estratégias, fazer planejamento para executar ações que melhorem a vida da comunidade, inclusive as escolas dos nossos filhos.
Uma escola de qualidade, com educação de qualidade, sabemos nós, mudaria todo esse quadro. Dizem que a educação liberta. E o indivíduo livre não se deixa domar. Para que haja esta transformação, não seria necessário nenhuma estratégia mirabolante, milagre ou rios de dinheiro. Seria sim, um grande desafio elevar a sua qualidade e adequar o ensino a era da informação. Mas não impossível. Obviamente seria necessário o interesse coletivo pela mudança, a criação de um novo modelo de gestão associado a profissionais competentes, motivados e com melhores condições de trabalho.    
Sem opção de uma vida profissional digna, os nossos jovens são marginalizados pela sociedade e pelo mercado de trabalho. Sem emprego e sem acesso ao mundo informatizado e ainda sem uma consciência critica sobre a valorização do ser humano, numa sociedade em que se prioriza quem detém poder e riqueza, abrem-se as portas do submundo. As drogas, um mercado em expansão, requisita estes jovens que rapidamente adquirem o que acham ser essencial à vida: dinheiro e poder. E assim, a violência se dissemina e bate a nossa porta diariamente. Já não mais podemos andar sozinhos, sair com algo de valor, sacar no banco o nosso salário, dirigir com os vidros abertos, ficar na calçada conversando com um amigo, já não mais podemos sair de casa, tampouco ficar em casa. Estamos condicionados a ter medo de tudo. Medo da hora, medo de ciclistas, de motoqueiros, medo de chegar, de ir, de ficar, medo até da aparência das pessoas. Cercamo-nos de cuidados e de tecnologia para evitar que ela chegue até nós, mas é inevitável. Estamos praticamente a mercê do acaso, da sorte. A tendência é cada vez mais nos isolarmos, sair apenas o necessário. Enquanto isso, as autoridades preferem construir mais presídios a escolas e gradativamente, percebemos claramente a sua evolução com o passar dos tempos.
E nós, aonde vamos?

Texto: Marta Adalgisa Nuvens

Foz do Rio Jaguaribe - Fortim - Ceará

Imagem: Marta Adalgisa Nuvens

A fruta preferida


           
         O colorido das barracas, o emaranhado de gente não me seduzia tanto quanto o tipo de linguagem utilizada ali. Cada um dos que vendiam usavam uma estratégia própria, particular, para seduzir o comprador. Embora se saiba que numa feira livre nem sempre o produto é de boa qualidade, mas, para eles, nos seus discursos, as frutas estão sempre fresquinhas, doces, suculentas, de excelente procedência e com ótimo preço.  Eu apenas ouvia a relação de adjetivos e elogios que eles apresentavam e seguia em frente; eu sabia e procurava a minha fruta preferida. Naquele tempo, ela não era encontrada facilmente, como hoje, na região em que moro. Era uma fruta de estação e aproveitando um passeio a casa de parentes ganhei esse presente: Passear na feira livre, num domingo de manhã e comprar a fruta que eu quisesse. A princípio, não era um programa muito divertido, mas, para uma criança de doze anos como eu e estando, pela primeira vez, numa cidade grande, tudo era novidade.
         Finalmente, chegamos à barraca das melancias madurinhas, vermelhinhas e suculentas. A gula me fez escolher uma das maiores, portanto, uma das mais pesadas. Descobri isso depois que soube que todos os que foram, ganhavam de presente a sua fruta favorita, mas tinham que trazê-la até em casa. Seria justo se eu não fosse uma menina tão raquítica, pequena para a minha idade, se eu tivesse sido a última a escolher e não a primeira e se não tivéssemos que tomar condução até em casa. Abracei-me á fruta e comecei a andar. A cada parada que o grupo fazia escolhendo outras eu a colocava no chão sentindo os meus bracinhos já cansados até pela dificuldade em segurá-la, pois não me deram sacolas. Mas eu pensava:
         - Até o ponto do ônibus vai ser difícil, mas eu aguento. Depois eu coloco ela no assento do meu lado e tudo fica bem.
         Porém, nem tudo o que planejamos sai exatamente como o programado. Além de chegar muito cansada, não tinha lugar para sentar no ônibus. Ele não estava exatamente lotado, o seu corredor estava livre, mas as cadeiras estavam todas ocupadas. Coloquei a melancia no chão e botei o pé em cima para que ela não saísse do lugar com o movimento do carro. Não deu certo. Não sei se era por que, até então, eu pouco tinha andado em transportes coletivos e não sabia as manhas de me segurar bem; a impressão que me deu foi que o motorista estava atrasado, portanto com muita pressa, ou estava de sacanagem comigo percebendo a minha inexperiência em realizar tal aventura.
Ele arrancava bruscamente e freava mais bruscamente ainda e a minha perninha fina não conseguia imobilizar a fruta. Achando ser mais fácil porque estava protegida entre dois adultos, ergui-a do chão e abracei-me novamente a ela. Na primeira arrancada do veículo, perdi o equilíbrio com o peso que segurava e fui empurrada para trás levando comigo a pessoa que “me protegia” pelas costas. Ela, com as mãos desocupadas, conseguiu se segurar e sair do caminho para que eu passasse numa carreira desenfreada, de costas, segurando uma melancia enorme. Achei que alguém me seguraria, mas me enganei. Fui surpreendida com uma freada brusca e igualmente arremessada para frente na mesma carreira desequilibrada de antes. Eu tinha que correr, não conseguia parar e se conseguisse, seria uma queda de grandes proporções. Na agonia, tentando encontrar um ponto de equilíbrio, ouvia as risadas dos passageiros seguidas de:
         - Solta a melancia, menina! Segurada a ela você não vai conseguir.
         As risadas se transformaram em gargalhadas e eu sendo jogada para frente e para trás a mercê do motorista e ninguém fazia nada para me socorrer, nem mesmo os meus parentes patrocinadores. Até que finalmente, numa parada para uma pessoa descer, alguém me segurou e pude olhar envergonhada pelo vexame ali apresentado, para as pessoas que riam de mim e com olhar de raiva para os meus acompanhantes que não me salvaram.
A caminho de casa ninguém comentou o fato e não me perguntaram por que eu não a soltei para conseguir me segurar. Segui em silêncio sentindo-me a mais indefesa das matutas numa cidade grande. Se o tivessem feito talvez eu não soubesse responder. Mas se a pergunta fosse se a minha fruta preferida continuava a mesma, responderia, com muita certeza, que era limão ou qualquer outra de igual tamanho.

 Texto: Marta Adalgisa Nuvens

Cachoeira Buraco da Velha - Meruóca - Ceará

Imagem: Marta Adalgisa nuvens

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O encontro



            Vivinha fazia os últimos retoques com o seu batom na frente do espelho. Estava um pouco nervosa, apreensiva com o encontro de logo mais. Há tempos não sentia essa sensação gostosa, esse friozinho da barriga que sentimos quando vamos encarar uma situação desconhecida. Desde que se separara de seu vizinho nunca mais tinha inventado de se apaixonar. Tinha perdido o interesse depois de longos anos de convivência, de idas e vindas no relacionamento com o dito cujo. Morava cada um na sua casa é verdade, cada um com a sua vida também, mas o bem-querer ultrapassou a barreira dos vinte anos. Depois disso, Vivinha jurava ter sepultado o coração, como diz o poeta. Depois do final do seu romance, sobraram as lembranças, as saudades, as manias adquiridas e o tempo passou. Agora, com seus cinquenta e três anos, ela percebeu que se havia enganado. A vontade de ter alguém por perto lhe dizendo palavras melosas e lhe fazendo dengo estava evidente. Sabia que seria um tanto difícil pelas barreiras que ela criou e pelo estereótipo do amante/companheiro que ela havia sonhado. Queria uma relação tranquila, alguém que lhe passasse segurança, elevasse a sua autoestima, fosse bom companheiro e lhe fizesse rir. Ah! E precisava ser educado e cavalheiro também. Chega de homens mal educados, egoístas e machistas. Queria ser feliz. Agora ela questionava se já o tinha sido.
            O encontro estava marcado e pronto. E se tudo corresse bem, em breve ela colocaria a felicidade em dia. Estes anos de solidão cicatrizando as suas feridas a tinham feito uma mulher mais madura, mais seletiva e a todo custo procuraria não comparar o seu novo pretendente ao seu antigo amor. As pessoas são diferentes por mais que pareçam iguais e começar tudo em cima de comparações não seria muito saudável. Portanto, prometeu a si mesma esquecer o passado e entrar nesta nova relação livre de preconceitos, de coração e alma abertos.
            Em tudo essa nova situação era diferente. Ela e José Roberto nunca tinham se visto antes. Os contatos foram feitos, até então, pela internet. Eles se encontraram num chat de bate-papo, a conversa rendeu e resolveram se conhecer melhor. Depois de muita conversa e de troca de informações mútuas, resolveram trocar os telefones e hoje seria o grande dia. Sabiam mais ou menos das suas aparências físicas porque se descreveram, mas nem fotografias se permitiram trocar. Não fora necessário. Ambos eram adultos, aposentados, ele com cinquenta e seis anos, viúvo, os filhos casados, netos até, ambos não tinham a intenção de enganar nem de se deixar enganar. Encontrar-se-iam às treze horas em frente à estação do metrô, pois ele estava impossibilitado de dirigir por causa de um problema na coluna e o primeiro encontro é sempre bem melhor em lugares públicos. Combinaram a cor da roupa, caso a descrição não fosse suficiente para um pronto reconhecimento.
            Exatamente no horário marcado, Vivinha chegou ao ponto combinado. Antes de descer do carro ela deu uma boa olhada nas pessoas que estavam ou passavam pelo local e, particularmente, ninguém lhe chamou a atenção. Ninguém parecido com a descrição de José Roberto. Esperou um pouco sentada ao volante, mas logo pensou que seria melhor descer e ficar circulando pelo jardim. Assim, disfarçava o nervosismo e ele a veria com maior facilidade. Encontrou um estacionamento um pouco distante e veio caminhando davagarinho tentando se fazer notada. Mal chegou em frente ao canteiro central, ouviu o seu nome.
            - Vivinha? Moça, você é Vivinha?
O seu coração bateu apressadamente, suas mãos suaram, as pernas tremeram, mas, conseguiu abrir um sorriso e se virar na direção do som. Ela, anteriormente, havia se programado para as surpresas. Por mais que se saiba da pessoa, sem nunca tê-la visto, alguma coisa sairia diferente. E que diferença! E que surpresa Vivinha teve! Seus olhos se depararam com a imagem de um homem imensamente gordo, envelhecido, aparentando uns 75 anos, cabelos desgrenhados, forçando um sorriso amarelo em que se percebiam seus dentes, igualmente amarelos. A moça sentiu o sangue gelar nas veias, o seu sorriso sumiu, engoliu em seco e não soube o que dizer. Ele se aproximou e tomando as suas mãos a beijou de um lado e do outro do seu rosto e ela percebeu, além de tudo, um cheiro muito forte de sarro de cigarro.
- Minha santinha milagrosa que nunca me abandona, o que eu faço? O que eu digo? Gritava ela para dentro de si mesma.
A primeira reação foi de correr, sumir dali. Em nada a descrição dele coincidia. Apenas a voz era a mesma. Conseguiu pronunciar um “Como vai, você” e, aos poucos foi reagindo ao impacto.
- Calma, já que você se meteu nessa, seja pelo menos educada. Pensou ela.
            Meio sem jeito, ela apontou a direção do estacionamento. Ele olhou na direção indicada por ela e disse:
            - Vixe! Ta muito longe. Você pode ir buscá-lo?
            Mesmo achando que ele estava sendo rude, ela saiu e voltou em seguida, parando na frente dele. Ele desceu a calçada com dificuldades, andando lentamente, arrastando os chinelos já gastos pela idade. A cada descoberta que ela fazia, era maior o seu desencantamento. Ele abriu a porta, entrou com dificuldades e ela saiu devagar.
            - Desligue o ar, abra os vidros, gosto de vento no rosto. Você já escolheu o restaurante pra onde vamos? Vou logo dizendo que não gosto de periferias. Disse ele em tom autoritário.
            Ela, já murcha pela decepção, pensou em retornar e deixá-lo no ponto do encontro, fugir dali e esquecer que um dia havia se interessado em conhecê-lo, mas a curiosidade falou mais alto. Iria agora até o fim. Queria ver ou saber o motivo de toda aquela arrogância. Antes mesmo que ela respondesse alguma coisa, ele continuou:
            - Um dia desses fui com um amigo a um bom restaurante no Meireles. Lá tem uns bons. Você pode ir pra lá. Eu só como se for nele, se for peixe á delícia e se o peixe for branco.
            Ele dizia isso e nem reparava no semblante de decepção de Vivinha. Ela só ouvia e seguia em direção ao bairro indicado que ficava do outro lado da cidade. E ele continuava:
            - Ô cidade provinciana! O asfalto é terrível. Tá magoando a minha coluna! Dirija mais devagar... quero chegar lá inteiro!
            Nessa ladainha de reclamações e resmungos, chegaram ao local indicado. Os restaurantes por onde passaram estavam lotados. Não havia aonde estacionar. E mesmo assim ele insistia que só queria aquele, que ficava numa esquina, mas já não lembrava os nomes dele nem da rua. E ela, coitada, a dar voltas e mais voltas no quarteirão que ele apontava achando ser aquele procurado. Depois de mais algumas voltas, ela, já irritada, parou o carro e disse:
            - José Roberto, nós só podemos ir se for pra esse? Têm tantos outros nessa cidade! São duas horas, hora de almoço, todos estão lotados e a gente procurando esse restaurante imaginário? Se você quiser, lhe deixo em casa, mas esse eu não procuro mais.
            Ele olhou para ela meio surpreso com a sua reação, pois em todo o percurso ela havia concordado em tudo, e disse meio sem graça que ela escolhesse outro. A capricho, ela o levou a um dos melhores restaurantes de frutos do mar da cidade. Em frente ao mar de onde se via toda a orla e se recebia uma brisa gostosa. Parou o carro e o manobrista veio ao seu encontro.
            - Você não vai entregar a esse homem? Vai? Esse povo nunca trata o carro da gente como deveria. É um bando de irresponsável. Continuava ele.
            Ela nem mais respondeu. Desligou o motor, desceu do carro, entregou a chave ao homem e se encaminhou para a calçada. Olhou para trás apenas uma vez e viu que ele a seguia andando com dificuldade. Ela entrou no restaurante, sentou numa mesa e ficou esperando que ele chegasse. Um misto de raiva e decepção era o que ela sentia no momento. Raiva dele por tê-la enganado criando um perfil imaginário e raiva dela por ter acreditado na conversa dele. Mesmo assim, ela ainda tentava diminuir a sua culpa, pois sempre acreditara em que, à proporção que vamos envelhecendo, vamos ficando mais sábios, mais coerentes, mais honestos, mais verdadeiros. Ele, um homem com mais de cinquenta anos deveriam ter aprendido isso ao longo da vida, ou, a pelo menos e no mínimo, falar a verdade, principalmente quando essa verdade estará prestes a aparecer. Consolava-se a si mesma degustando uma boa dose de rum que havia pedido. Ele havia chegado ofegante e sentado a sua frente. Estranhamente estava calado e a olhava fixamente. Repentinamente, fez a pergunta esperada:
            - Você acha que entre nós houve química?
            Ela desviou os olhos do mar, olhou nos olhos dele tranquilamente e disse com toda a sinceridade da alma:
            - Definitivamente, não.
            Mas a sua vontade era a dizer tudo o que pensou e observou sobre ele ao longo da tarde. Que ele estava velho demais para ser o seu companheiro ideal; que ele fumava e que ela era asmática, sem contar que dizem que beijar um fumante e um cinzeiro é a mesma coisa; que ele era grosseiro, mal-educado, esnobe, preconceituoso, mentiroso, não gostava de praia, não gostava de jogo, não gostava de acordar cedo, não gostava de gente, pelo visto nem dele mesmo; pois o seu mau humor se percebia a quilômetros de distância. Em resumo, não gostava do que ela gostava. A sua vontade era de lhe dizer que, para ela, pouco lhe importava se ele havia morado no Rio, em Ipanema, em Paris ou Amsterdã; que o caráter das pessoas não se mede pelo bairro, cidade ou pais em que moram... mas estava cansada. Apenas o olhou e respondeu. Por sorte, nem mais outra pergunta foi feita e nem um tipo de insistência foi esboçada. Apenas chamou o garçom.
            Apesar de, a princípio relutar em comer, alegando que o peixe não era tão branco como devia ser todo o peixe que se preza, ele bem que gostou. Devorou tudo rapidamente ainda reclamando do calor, do sol, do tempo, do atendimento, da minha bebida, da demora do cafezinho... de tudo. Até do menino de rua que pedia um trocado enquanto os seguia para o carro.
            A volta foi tranquila. Ela resolveu ficar calada, ouvir uma música e deixar terminar esta aventura. A raiva e a decepção do início foi se transformando em vontade de rir. Rir dele e do seu exagero em querer demonstrar ser uma pessoa que realmente não era; rir dela mesma e da sua ingenuidade de ter acreditado no que ele lhe dissera nos últimos dias. Quando o carro parou, ele não desceu sem antes perguntar se poderiam ser amigos e quando sairiam juntos novamente. Ela mecanicamente respondeu um “sim” e um “qualquer dia” e foi embora. A caminho de casa, pensava na hora que contasse essa aventura aos seus amigos, a reação de cada um deles e nas boas gargalhadas que dariam juntos mangando deles mesmos e das situações que a vida oferece. E que venham as próximas aventuras!
           
           
Texto: Marta Adalgisa Nuvens

Teatro José de Alencar - Fortaleza - Ceará

Imagem: Marta Adalgisa Nuvens

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O homem que via demais.


            Clarindo era o seu nome. Homem de poucas palavras. Ouvia mais do que falava e quando o fazia, era com aquela sua voz mansa, pausada, sem pressa. Muitos o escutavam pela riqueza de detalhes com que ele contava seus causos. Diziam que ouvi-lo era como se presenciassem a cena. Outros diziam que ouvi-lo dava sono. Mas ele não se importava. Ouvia a todos e, para não desagradar, ou não ter que argumentar, concordava com tudo balançando a cabeça afirmativamente. Poucas vezes intervinha na conversa. Ele apenas ouvia. Um dia, Clarindo sumiu por uns tempos e quando reapareceu estava cheio de novidades. Passara dois meses andando pelo interior, visitando as pessoas fazendo o recenseamento do governo e nesse período vira uma coisa que precisava ser contada. Não sei se acreditada... mas contada.
            Ele conta que esse fato aconteceu, numa casa isolada, num lugarejo chamado Saco das Pedrinhas. Ele afirma que vinha descendo uma ladeira que dava em direção à casa, já quase meio-dia, com muita fome, o sol causticante queimava a sua pele já morena e o suor lhe escorria pelo rosto (exatamente com esses detalhes) quando ouviu uns gritos e gargalhadas de crianças. Chegando mais perto, percebeu que crianças, trazendo livros e cadernos, como quem voltavam de uma escola, estavam parados na frente desta casa e jogavam muitas pedras nela.
            - Ei, meninos... não façam isso. Respeitem o dono da casa... já pensaram que pode ser uma pessoa idosa? Falei, andando em direção aos estudantes.
            - Aí num mora ninguém, não Seu Zé. Morava D. Maria parteira, mas ela já morreu. Disse um deles.
            - Mas não façam isso! As pedras estão quebrando o telhado, as portas... o dono não vai gostar! Melhor vocês irem pra casa. Continuei.
            - É casa abandonada, seu Zé. Depois do que começou a parecer aí... ninguém chega mais perto. O Sr. não sabia, não? Aí aparece uma visagem e todos têm medo de passar por aqui. Melhor o Sr. não ficar aqui também.Disse o maior deles.
            Olhei para o menino, olhei para a casa e vi que ela tinha um alpendre meio esburacado de tanto ser apedrejado, mas ainda com sombra fresquinha. O calor era enorme e pensei:
            - Meninos bestas acreditam nessas histórias. Tá vendo que isso não existe!
            E me encaminhei em direção a ela, já tirando das costas a mochila pesada cheia de mantimentos e papéis. Eu sempre andava prevenido. Sabia que nesse sertão brabo pouca gente me oferecia um “de comer”, não por avareza, mas por insuficiência mesmo. Todos eram muito pobres e com as casas cheias de filhos. Às vezes, eu até doava um pouco da minha comida por sentir pena de tanta pobreza e fome.
            - Ei, seu Zé! Num vá não... a coisa ... é valente! Gritaram os meninos.
            Não me importei. Caminhei em direção a casa ignorando o conselho dos meninos. Estava cansado. As botas doíam nos meus pés, as costas estavam cansadas do peso da mochila e a fome era intensa. Aquele alpendre e o sossego do lugar estariam ótimos para fazer uma merenda, tirar um cochilo e seguir viagem. Cheguei, coloquei a mochila no chão, sentei-me na calçada meio alta, abri a bolsa e tirei de dentro dela um chinelo já meio velho, mas confortável. Descalcei as botas, meti os pés nas chinelas, massageando-os. Senti o ar fresco no meu rosto e olhei na direção dos meninos para chamá-los a me ajudarem a procurar uns gravetos para fazer um fogo. Faria café e na sacola tinha biscoito suficiente para todos. Mas não havia mais ninguém. Eles tinham sumido.
            - Meninos danados. Toda criança é assim. Vive arrumando travessuras pra fazer. Me lembro de quando era criança também quando andava botando cana pros engenhos da região no velho burro trigueiro. Mas isso é outra história. Eu pensei.
            Levantei-me devagar e comecei a procurar a madeira para fazer o fogo, quando ouvi o som de alguém caminhando dentro de casa, como se arrastasse as chinelas no chão. Parei. Ouvi novamente e resolvi olhar por um dos buracos feitos pelas pedras na parede de taipa. Cheguei devagarzinho, pisando leve para não fazer zoada e botei o meu olho no buraco. O que eu vi, não podia acreditar. Andavam pela sala, levantando poeira duas sandálias sem os pés. Elas andavam sozinhas e direitinho, como se pés invisíveis estivessem dando o rumo das passadas. Fiquei paralisado olhando a cena e notei que elas agora vinham ma minha direção. Achei que a parede nos separava, mas não, elas a atravessaram se achegaram bem perto de mim e pararam. Iguaizinhas, como se os pés que deveriam estar ali dentro estivessem juntinhos. Virei-me e fiquei olhando para elas sem saber o que fazer. Lembrei-me das histórias contadas pela minha mãe sobre as almas penadas que viviam assombrando o povo, conversa em que eu nunca acreditei. Lembrei-me também que palavras deveriam ser ditas para que o fantasma dissesse a que veio. Talvez uma promessa feita e não paga ou algum mal causado a alguém... Tomei coragem, e disse:
            - Quem pode mais do que Deus?
            Nada. Elas continuavam imóveis e eu sentia que o dono delas olhava fixamente pra mim. Mas, não sou homem de duas conversas. Esperei um pouco e repeti a pergunta:
            - Quem pode mais do que Deus? Posso ajudar? Me conte o que lhe aperreia!     
            Notei que elas se mexeram. Foram se erguendo no ar e ficaram mais ou menos na altura da minha cintura. Esperei ouvir alguma voz, algum pedido, mas elas investiram sobre mim e me batiam por todo o corpo. Eu tentava me defender, mas não sabia como me livrar delas. As pancadas eram fortes, estava com os braços vermelhos e elas não paravam de me bater.
            Meus amigos... num contei conversa. Não sou homem mole, não tenho medo e nem acredito dessas coisas, mas não tinha outro jeito a não ser correr. Saltei da calçada num pulo e ganhei a capoeira ainda sentindo as pancadas nas minhas costas e pernas. Corri uns cinquenta metros e senti que elas pararam. Parei também e olhei pra trás. Nada. Estava tudo no mais perfeito silêncio. E agora... cadê coragem de pegar as minhas coisas? Esperei uma meia hora pra ver se passava alguém pela estrada que me ajudasse a voltar lá, mas ninguém passou. Não que eu tivesse com medo, não. Tinha receio era de estar incomodando. Como sou cabra macho e num levo desaforo pra casa, voltei e fui pegar as minhas trouxas. Peguei tudo e nada mais aconteceu. Mas também, num demorei muito não. Deixei pra calçar as botas um pouco mais adiante na sombra de uma moita pra não desagravar a pobre da alma penada. Nunca mais passei por lá, mas dizem que elas continuam a surrar quem se mete a besta de sentar naquele alpendre. E juro por Deus... isso é a mais pura verdade!

Texto: Marta Adalgisa Nuvens

Museu de Paleontologia de Santana do Cariri - Ceará

video
Reportagem feita pela Tv Diário do Nordeste em julho de 2010

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O exame médico


            Lourdes foi ao médico para fazer uma consulta de rotina.  Lá pelas tantas, ela percebeu, pela cara dele, que alguma coisa não ia muito bem. Enquanto ele a examinava, ela, assustada, aguardava aquela reação do seu semblante traduzida em palavras. As mãos suaram frio, ficou com a garganta seca, mas como cabocla nordestina que era, esperou com cara de paciência a tão aguardada  notícia. Cuidadosamente, ele concluía a consulta auscultando aqui, dando pancadinhas ali, hora pedindo pra ela repetir trinta e três, hora puxando conversas amenas para mantê-la tranquila Até que, depois de medir a sua pressão arterial, deu por encerrada a sua tortura.
            - Quero uns exames mais detalhados. Preciso ver algumas coisas e só com resultado deles é que conseguirei dizer, com mais exatidão, como você está. Disse o médico.
            - Alguma coisa grave, doutor? Ela falou quase sem voz.
            - Aparentemente não, mas como você já passou dos quarenta, é melhor fazermos um check-up. Melhor prevenir do que remediar. Completou ele.
            Lourdes olhava atentamente nos olhos do médico tentando ver se ele lhe escondia algo. Muitas vezes é assim. Os médicos dizem que não é nada e depois a coisa não é tão normal assim. No entanto, agora estava sem jeito. Faria tudo conforme o recomendado. Deixaria para ter medo depois, se preciso fosse. Como dizia a finada sua mãe: “Não devemos correr do bicho antes de vermos o tamanho dele”. O grande problema era que teria de ir a capital.
            - Diabos de interior! Tudo que se quer fazer tem-se que sair daqui. Pensava ela, angustiada.
A grande preocupação de Lourdes era que ela jamais havia deixado o seu interior do interior. O seu pé de serra querido onde criava galinhas, plantava o seu roçado e se orgulhava e quase nunca precisar comprar legumes nas bodegas. Acordava com o sol e não dormia antes ler algumas páginas de velhos romances de M. Delly. Hábito adquirido com a sua mãe. Lourdes era uma mulher simples. Quarentona, nunca casou e quando terminou o curso normal e se fez professora, comprou um terreninho perto de seus pais e passou a morar sozinha. Viajar... quase nunca. Além das viagens que os livros lhe proporcionavam, algumas poucas, aqui e ali quando precisava de médico ou dentista ia para as cidades vizinhas maiores. A escola municipal onde lecionava ficava pertinho. Pouco mais de um quilômetro, trajeto que ela fazia todas as tardes na sua velha bicicleta.
Essa viagem para capital estava lhe tirando o sono. Uma cidade grande, cheia de armadilhas. Ruas a perder de vista, gente que não se conhece se engalfinhando nas calçadas estreitas, barulho de carro, buzinas, prédios enormes... e outras coisas que só se aprende a fazer, olhando os outros fazerem e fazendo depois. Lourdes tinha medo. Medo do desconhecido. Mas pensava. “E quem não tem medo do que não se conhece”?
Finalmente o grande dia chegou. Lourdes chegou a capital. Como tudo já estava encaminhado, era fazer os exames e voltar rapidamente para o sossego do seu interior. Então, a maratona começou. Exames disso, daquilo, raios-X disso, daquilo e finalmente o último exame. Um teste ergométrico. Deixado por último por ser o mais simples.
Cedinho, Lourdes chegou ao consultório. Toda de tênis e de roupa esportiva por recomendação da atendente. Na sala de espera, ela estava apreensiva. Não tinha a menor noção de como ele seria. Mas aguardou com cara de paciência ser chamada. Logo depois, saiu da sala ao lado uma moça de branco com um papel na mão e chamou:
- Dona Lourdes?
- Pronto. Respondeu.
- Pode entrar.
Ela entrou. Era uma sala grande com uma escrivaninha e uma cadeira em um canto, onde estava um médico, uma balança perto da porta e no outro canto uma esteira.
- Coloque aqui a sua bolsa. Disse a assistente.
- Vou colocar uns aparelhos na senhora, colar uns fios, que servirão pra monitorar a sua pressão arterial, seu batimento cardíaco e ver a sua resistência física. Completou ela.
Pediu para que ela se deixasse pesar, colocaram fios nas suas pernas, braços e em cima do coração e pediu que ela se mantivesse calma. O nervosismo podia fazer oscilar a sua pressão.
- A senhora já andou numa esteira? Perguntou a moça.
- Não. Disse ela.
- É simples. Quando eu ligar, a senhora vai andar normalmente. Depois vou colocar mais rápido um pouco, a senhora apresse o passo também. Mas antes, vou deixá-la em aclive, simulando uma pequena ladeira para vermos a sua resistência. Quando a senhora estiver cansada, avisa e eu paro a máquina. Tudo bem?
Ela fez que sim com a cabeça e subiu na esteira. A máquina foi ligada. Quando Lourdes sentiu o chão se mexendo não soube o que fazer. Ficou parada, aflita, toda dura não podia mudar a passada com medo de cair, medo de a esteira acabar e ela ser jogada para fora. O chão passava por ela muito rápido e cada vez mais chegava perto do final. A moça gritou aflita:
- Ande senhora! A esteira está acabando a senhora vai cair!
Lourdes, meio atordoada, começou a esboçar pequenos passos, mas toda retesada não conseguia se equilibrar. Segurou nos amparos laterais com força, tentou ficar de pé normalmente, mas não conseguia. Estava torta, curvada para frente, batia de um lado e do outro na barra de ferro lateral tentando a todo custo se agarrar, se equilibrar.
- Meu Deus, andar aqui, é diferente de andar. Quando andamos, nós passamos pelo chão. Aqui o chão passa pela gente. Pensava ela, aflita.
 Por mais que a moça lhe pedisse calma, lhe mandasse ir pra frente pra não cair por atrás, Lourdes não conseguia ficar ereta. Continuava ainda toda torta, tentando desesperadamente se segurar fosse aonde fosse, mas não conseguia. Foi quando ouviu uma voz:
- Não olhe pra baixo! Olhe pra frente pra ver se dá certo!
Ela ergueu a cabeça e começou a andar. Primeiro, com passos bem pequenos, depois foi conseguindo passos quase normais. Nesse intervalo, ela começou a se preocupar com o som dos seus sapatos na esteira. Eram altos. “Quando se anda, não precisamos fazer barulho”. Pensava ela. Achando que tinha dado muito vexame e que ainda continuava proporcionando sons muito altos, ela começou a andar nas pontas dos pés.
- Melhor assim. Não quero dar mais vexame do que já dei. Ando nas pontas dos pés e não faço ruído.
- Senhora, ande normalmente. Disse o médico com cara de riso.
- Mas... eu ando assim. Estou... normal. Falou ela baixinho quase imperceptível.
- Vixe, como a senhora anda esquisito! Disse o médico já quase sem conseguir segurar uma boa gargalhada.
Lourdes ficou vermelha de vergonha. Continuou o seu “caminhado” por mais uns cinco minutos e resolveu dizer que tinha cansado.
- Já? Disse a moça rindo.
- Mas não se passaram nem dez minutos!
Ela não conseguia mais andar. Não que estivesse cansada. No seu sítio no pé da serra andava infinitamente vezes mais e não se cansava. Era a vergonha de não ter conseguido, de ter falhado numa coisa tão simples. A equipe se entreolhada e ela previa a qualquer hora eles desatarem numa boa gargalhada.
Na sala de espera, enquanto aguardava o resultado, Lourdes, com alguns pontos roxos nos braços de tanto se bater nas barras laterais, pensava no exame.
- Será se dará certo? Foi tão pouco tempo!
Depois que a moça lhe trouxe o resultado. Com olhos e cara de quem tinha rido bastante, ela saiu do prédio. A caminho da casa, foi pensando no ocorrido. Ela nunca tinha passado um vexame tão grande. Exceto aquele em que, não sabendo existir portas de vidro, feriu a testa numa entrada de um cinema. Agora ela era que ria. Ria incontrolavelmente zombando dela mesma por ser tão matuta. Desejava que na sala tivesse uma câmera que tivessem filmado tudo.
- Ah! Seria muito engraçado rever toda aquela cena.


Texto: Marta Adalgisa Nuvens

Parque do Cocó - Fortaleza - Ceará

O Parque Ecológico do Cocó é uma área de conservação, um parque estadual da vida natural localizado na cidade de Fortaleza, Ceará. Perfeito para quem aprecia o verde e longas caminhadas, o Parque do Cocó, com seus 446 hectares, é um dos maiores parques localizados em área urbana da América do Sul. É a principal área verde da cidade, com bosques, um extenso mangue e uma flora e fauna característica.


Imagem: Marta Adalgisa Nuvens

O velório


              Estávamos brincando em frente de casa com os meninos da rua, como fazíamos todas as noites, quando ouvimos a minha mãe chorando. Entramos correndo aflitas e percebemos que ela arrumava apressadamente algumas coisas numa sacola grande, lamentando o que acabara de acontecer. Eu e a minha irmã Baiá nos entreolhamos sem nada entender e perguntamos:
            - O que aconteceu mãinha? Pra onde a senhora vai com essa sacola uma hora dessas?
            - Vou pra casa de comadre Ana. Ela acaba de falecer, tadinha! Uma pessoa tão nova... tão boa... tão prestativa. É assim mesmo... Deus chama primeiro os bons pra perto dele. Gente ruim? Morre tão cedo! Mas uma pessoa como a minha comadre, vai logo pro céu. Dizia ela acabando de arrumar a sacola com mantimentos para o velório.
            Cidade pequena é assim. Quando morre alguém conhecido e todos se conhecem, a cidade inteira vai para casa do defunto onde acontece o velório. Aqueles mais amigos levam ainda o que tiver na geladeira para servir às visitas durante a noite. Eles se distribuem quase sempre da seguinte maneira: Os homens ficam conversando na calçada ou no terreiro contando causos, fumando e tomando café. As mulheres mais chegadas à família ficam na cozinha fazendo café ou chá para servir com biscoitos e ainda preparando panelões de sopa e canja de galinha para os mais famintos aguentarem a noite de vigília.  Como a finada não pode ficar sozinha, porque segundo os mais velhos, defunto deixado sozinho atrai a atenção do demo, aquelas que têm menos intimidade ficam na sala junto com a família fingindo que rezam e observando a reação dos que entram para olhar a falecida e comentar depois. Um prato cheio para fofocas do outro dia. Tudo de valor tem que ser guardado porque tem aqueles que não são nem uma coisa nem outra e vão pra comer e surrupiar alguma coisa que esteja de fácil acesso. Criança não pode ir sozinha. Geralmente ficam em casa cuidando uns dos outros enquanto os pais vão prestar solidariedade à família do morto. Àquelas que vão, passam a noite cochilando pelos cantos porque as cadeiras são para as pessoas mais velhas ou então comendo as guloseimas que são preparadas no decorrer da  noite.
            Eu e minha irmã não fomos. A nossa mãe nos proibiu porque tínhamos medo de fantasmas. Por isso, nosso pai ficou conosco. Quando dormíssemos, como era de costume, ele ia e nos deixaria trancadas e sozinhas. Não tinha perigo de acordarmos sempre dava certo.
            Quando acordamos na manhã seguinte, a nossa mãe já estava em casa preparando o café e nos alertava para que fôssemos para o enterro. Aula não teria. D. Ana havia falecido e todos na cidade estavam tristes. Enquanto nos arrumávamos, ouvíamos uma conversa que vinha da cozinha. Era a voz da minha mãe que dizia:
            - Ave Maria, meu Deus é até pecado isso. Um homem tão bem de vida, com pena de gastar dinheiro com a irmã.
            E a voz do meu pai respondia:
            - Êh, minha velha, a gente só vale alguma coisa enquanto está vivo. Depois? Não prestamos mais pra nada. Vai ver, quando chegar a sua hora, ele vai poder levar alguma riqueza dentro do caixão! Ingrato! Isso é muita ingratidão!
            - O que aconteceu, mãinha? Perguntou a minha irmã.
            - Nada... isso não é assunto pra criança. Respondeu ela meio irritada.
            - E se avie e avie a sua irmã. Quero voltar logo pra casa da minha comadre. Ainda tem muita flor pra fazer coroa. Completou ela.
            Fomos os quatro até o velório sem dizer uma palavra. Seguíamos apressados e calados. A casa da falecida estava cheia. Parentes que tinham chegado durante a noite, estudantes fardados disputando quem levaria as coroas e os arranjos de flores, vizinhos e amigos que esperavam a hora de ir para igreja, para uma costumeira missa de corpo presente e depois descer para o cemitério. Aos poucos as filas foram se formando e por último, entre uma fila e outra, o caixão sendo carregado pelos homens. Uns o faziam por solidariedade ou amizade, outros, por promessa.
            A missa transcorreu sem incidentes. Algumas pessoas chorando, outras conversando, outras rezando, meninos inquietos correndo de um lado para o outro. Finalmente, hora do enterro. As filas novamente eram organizadas, agora pelas professoras. Na frente, iam os estudantes fardados representando seus colégios e depois vinha a comunidade. Ora rezavam o terço, ora cantavam benditos tristes para fazer chorar quem tivesse com vontade. O percurso era curto. A igreja ficava numa parte alta da cidade e bem abaixo ficava o cemitério, entre eles uma escada com vários degraus que os beatos usavam para pagar promessas, fazendo a penitência de subi-los de joelhos. Começamos a descer os degraus, quando de repente começou uma gritaria.
            - Segura! Pega! E pessoas correndo para todos os lados.
            Olhei para trás e vi o caixão rebolando degraus abaixo. O povo que estava nas filas ao invés de tentar fazer alguma coisa para pará-lo corria para os lados temendo se machucarem com a velocidade que ele vinha. Pulei para o lado e ele passou por mim a toda velocidade. Os homens que o deixaram cair corriam atrás tentando, em vão alcançá-lo. A esta altura, a confusão estava generalizada.  Uns corriam pensando poder segurá-lo, outros corriam temendo ser pisoteados, alguns riam incontrolavelmente com a bagunça que se formou e os estudantes gritavam e assobiavam como se fosse uma partida de futebol.
            Finalmente, numa saliência da escada, o caixão parou. Estava parcialmente destruído. A tampa descolada, todo amassado, as flores que estavam em cima da defunta espalhadas ao longo do caminho. Quando as primeiras pessoas chegaram perto dele para tentar fechá-lo e seguir com a cerimônia, notaram que a morta abriu os olhos. Na mesma velocidade que eles vinham voltaram gritando:
            - A morta tá viva... ela abriu os olhos!
Bastaram estas palavras para que todos saíssem correndo em disparada do local. A escada ficou estreita para tanta gente. Era gente para todos os lados que na correria não se importavam de pisar uns nos outros. O que era divertimento para alguns, se tornou motivo de pânico. As pessoas gritavam e corriam escada acima. Até aquelas que diziam não conseguirem subir tantos degraus nas promessas, subiram dois de uma vez em largas passadas. Rapidamente, o local ficou deserto. Os feridos foram socorridos por amigos ou parentes e tirados dali.
Passado o impacto da surpresa, um e outro curioso, de longe ficava nas pontas dos pés, para olhar se via alguma coisa, para saber como tinha terminado tudo aquilo. A ex- defunta tentava se levantar do caixão, mas não conseguia. Estava zonza de tanto ser sacudida escada abaixo. Enquanto isso, a roda de curiosos do alto da escada que a todo instante aumentava, assistia a tudo, mas ninguém tinha coragem de se aproximar. Fazendo muito esforço, ela conseguiu se sentar. Foi mais um momento de pânico e correria para aqueles que já começavam a voltar. Gente se atropelando uns aos outros fugindo com medo do fantasma.  As pessoas que estavam mais ao longe se benziam achando que era realmente assombração, e alguns, achavam ter sido um milagre. Ela havia ressuscitado. Como não conseguia sair do caixão sozinha, ela começou a gritar por socorro:
- Por favor, me ajudem. Eu não morri, não. Vejam, estou viva!
            A multidão não queria conversa. Olhava de longe a agonia dela, mas ninguém tinha coragem de chegar perto. Passado algum tempo, vi a minha mãe se chegando devagarzinho para perto da amiga. Manteve-se a meia distância por precaução e disse:
            - Comadre? Você tá viva ou é assombração?
            - Ei, comadre. Tô quase viva. Acho que quebrei a minha perna. Não consigo me levantar.
            - Como foi isso, comadre? Posso jurar que você tava morta!
            - Tava como morta; ouvia tudo, mas não conseguia me mexer. Até chorei, mas as lágrimas não caíram. Dei um ataque, comadre e ia sendo enterrada viva. Graças a Deus houve esse entropicão que me derrubou e com tanta pancada consegui me acordar.
            - Ave Maria, comadre. Cruz credo! Que coisa horrível. Chegue, vamos levantar.
 Dizendo isso, ela chegou mais para perto, segurou nos braços agora quentes da amiga e fez força para que ela se levantasse. Foi então que lembrou que a roupa que haviam feito para ela se enterrar tinha apenas a parte da frente. O irmão que deveria arcar com as despesas do funeral não dera dinheiro para tal e improvisaram apenas um pano marrom que passava pelo pescoço, cobria os seios e era amarrado na cintura. Como ela havia feito uma promessa com São Francisco, não poderia ser enterrada com uma roupa comum, improvisaram assim. Afinal, ela estava morta mesmo e com as flores que colocariam dentro do caixão, ninguém perceberia nada. “E agora”? Pensou a minha mãe. No momento, ela estava sendo a pessoa mais observada da cidade e estava completamente nua. Olhou quem estava mais próximo e viu a cabeça de Bangá., o coveiro,  escondendo-se atrás de um poste.
- Ei, Bangá, vem cá! Me ajuda! Disse ela.
- Eu? Disse ele meio disfarçado.
- Sim, você mesmo.
- Diz daí, dona Clara. Que escuto daqui Completou ele.
- Vem cá homem mole, preciso da sua camisa pra cobrir as partes de comadre!
- A minha camisa? Num tem outra coisa não?
- Não.
- Num dá pra ela ir assim, não?
- Dá não. Vem logo, me dá a sua camisa.
Ele enrolou a camisa numa pedra e jogou para ela. Minha mãe a vestiu com a camisa e com o pano que ela se enterraria, improvisou uma saia. Levantou-a com cuidado e, segurando no corre mão da escada, foram subindo davagarinho. Ninguém se aproximava. Todos olhavam de longe a cena até que foram aparecendo os primeiros voluntários. Levaram-na para o hospital, pois na queda a defunta quase morria. Quebrou a perna, algumas costelas e ficou cheia de hematomas. Depois disso, por causa da rejeição de algumas pessoas, inclusive da família, e por causa do falatório e das fofocas sobre este fato, não lhe foi mais possível morar na cidade. Teve que se mudar. Mas ainda hoje se comenta o fato e apesar de todo sofrimento e traumas sofridos dizem que ela ainda foi feliz, porque fatalmente seria enterrada viva.

Texto: Marta Adalgisa Nuvens